Sabrina Noivas 014
Rescued By Love

A noiva queria o futuro. O noivo era perseguido pelo passado. Mas o casamento foi um grande acontecimento! A comissria de bordo Andrea Claybourne sobreviveu a um terrvel desastre areo, transformou-se em 1 herona... e depois desistiu do emprego. Decidida a recomear a vida, iniciou o treinamento para patrulheiros do Grand Canyon. Quando seu instrutor, o patrulheiro Kurt Marlowe, protestou contra sua admisso, ela foi forada a lutar no s contra sua atitude, mas contra a atrao que sentia por ele. Porque sabia que seria um engano apaixonar-se por um homem que se recusava a retribuir seu amor. Um homem incapaz de perdoar-se por uma tragdia em seu passado. Andrea sabia que amar Kurt seria uma aventura to perigosa e emocionante quanto o prprio Canyon.

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1994
Gnero: Romance Contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida

 


Srie Nupcial (The Bridal Collection)

Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Kate Denton
To Love and Protect
	Oct-1992Ruth Jean Dale	Showdown!
Sabrina Noivas 16 - Uma Lenda de Amor	Jan-1993Anne Marie Duquette	Rescued by Love
Sabrina Noivas 14 - Unidos Pelo Destino	Mar-1993Shannon Waverly	Temporary Arrangement
Sabrina Noivas 04 - Sim, Meu Amor	Apr-1993










CAPITULO I

Uma   aeromoa!   Voc   contratou   uma aeromoa!
Andrea Claybourne irritou-se ao ouvir a indignao na voz do sujeito. Ajustou a saia, cruzou as pernas e continuou ouvindo a discusso alm da porta do escritrio do diretor de pessoal Jim Stevens. No podia ver os dois oponentes, mas ouvia suas vozes com clareza espantosa.
	O termo exato  comissria de bordo  Jim respondeu com calma.
	Use o termo que quiser, Jim, mas pare com essa bobagem!
No pode esperar que eu treine uma mulher que passou os ltimos cinco anos servindo bebidas, maquiando o rosto e usando uma lata de spray para cabelos por dia!
Andrea sentiu o sangue ferver ao ouvir o insulto.
	Andrea Claybourne sabe mais coisas alm de servir um drinque.
Voltou a estudar durante o exerccio "da profisso de comissria, e  registrada como tcnica de emergncias mdicas.
	Uma tcnica sem experincia  o mesmo que nada. Isso aqui  o Grand Canyon, Jim, no a cabine de uma aeronave! Durante o vero, este parque recebe cerca de quarenta mil visitantes por dia!
Registramos de oito a dez casos graves cm cada planto, e essa mulher no tem capacidade para lidar com esse volume de atendimento!
Andrea lembrou-se do acidente areo do qual havia escapado h dois meses. Era capaz de lidar com coisas muito mais srias do que joelhos esfolados e dores de cabea!
	Oua, Kurt...  Jim tentou com tom de conciliao.  Garanto que Andrea  qualificada para o trabalho.
	O curriculum no confirma o que est dizendo. Apenas algumas aulas tericas de atendimento clnico e um estgio rpido no Hospital Militar Fitzsimmons. Alm de no ter experincia como tcnica de emergncia mdica, tambm no tem nenhum conhecimento a respeito da polcia florestal.
Errado novamente. Possua a experincia necessria, e a adquirira da maneira mais dura possvel.
Ainda podia sentir o cheiro de leo do avio destrudo e ouvir os gritos dos passageiros que, feridos e desesperados, pediam ajuda. Lembrava-se de ter-chamado Dee, a outra comissria, e de ter descoberto que sua grande amiga havia sido a fatalidade, o nico bito naquele acidente. A tripulao ficara presa entre as ferragens, do outro lado da aeronave, e ela vira-se sozinha para socorrer a todos.
Evacuara os passageiros, vencera o fogo e depois fora cuidar de sua vida pessoal. Havia pedido demisso da empresa area, colocara a casa que herdara de uma tia  venda e atualizara seu curriculum. Os pais mostraram-se perplexos com suas decises.
	Andrea, tem certeza de que quer desistir do emprego?  haviam insistido vrias vezes.  Afinal, j est l h cinco anos!
	E tenho procurado por outra chance h dois. Por isso voltei a estudar.
	Mas... pensei que quisesse trabalhar no hospital iocal  a me surpreendera-se.  O Arizona  muito longe! Nunca disse nada sobre um trabalho num parque, especialmente como guarda florestal!
E no entanto, acabara chegando ao escritrio de administrao de pessoal do parque Grand Canyon.
O ltimo passageiro que resgatara fora uma garota de nove anos chamada Emily. Voava sozinha de Denver para o Grand Canyon, e estava excitada com as frias que passaria na casa dos avs. Emily era uma criana adorvel, e ainda podia lembrar sua expresso angustiada quando, em meio aos momentos de terror, algum a tirara dos braos de Andrea e a colocara em uma maca.
Ficara perto da menina o tempo todo. Havia seguido com ela na ambulncia, e depois fora visit-la vrias vezes na ala peditrica do Hospital de Denver. Resistente como todas as crianas, Emily havia
se recuperado depressa, e chegara a dizer que no precisavam ter cancelado suas frias no Grand Canyon. Assim que conseguisse permisso, entraria novamente em um avio e iria ao encontro dos avos.
Andrea havia admirado sua coragem e esprito de devoo  famlia e, num esforo para amenizar seu desapontamento, comprara um livro a respeito do Grand Canyon e lhe dera de presente. Logo depois disso, o anncio da guarda florestal havia sido publicado em um jornal.
Num impulso sbito e inexplicvel, enviara o curriculum para uma das dez caixas postais relacionadas no anncio e esperara ansiosamente pela resposta.
Queria trabalhar em qualquer coisa, em qualquer lugar, desde que fosse longe de sua cidade natal. Alm do mais, no queria ficar presa em um escritrio, pois os anos que passara trancada nas aeronaves haviam sido suficientes para toda uma vida.
Jim Stevens telefonara uma semana mais tarde. Sua primeira pergunta havia sido:
	Voc  a mesma Andrea Claybourne que resgatou aqueles passageiros no aeroporto de Stapleton, h alguns meses?
	Sim, sou eu. Como soube disso?
	Os jornais do pas inteiro noticiaram o fato, srta. Claybourne.
	Ah... No li jornais durante alguns dias depois do acidente.
Ficara muito abalada com tudo, especialmente com a morte de Dee. Haviam crescido juntas, frequentaram a mesma escola e trabalharam para a mesma empresa area. Eram inseparveis, e a morte da melhor amiga a atingira duramente.
	E compreensvel  Jim havia dito com simpatia.  Mesmo assim, li a respeito de sua atuao, e gostaria de saber se est realmente interessada na vaga de guarda florestal.
	 claro que estou! Estava planejando deixar a aviao antes mesmo do acidente, e por isso voltei a estudar. Sou solteira e, alm de meus pais, no tenho laos permanentes em Denver.
	Ento, a mudana profissional no  s uma reao ao acidente?
	Oh, no! Trabalhar como tcnica de emergncia mdica  um projeto antigo.
	Tem algum problema com relao a voltar a voar? Se for contratada, ter de locomover-se nos helicpteros do parque para eventuais atendimentos.
	Para ser bem franca, admito que tenho pssimas recordaes ligadas  aeronaves em geral. Mas a empresa area me enviou para uni aconselhamento psicolgico antes de aceitar meu pedido de demisso, e isso incluiu algumas viagens curtas a bordo de pequenos avies. Recebi um atestado de sade mental do psiclogo, c posso lhe enviar esse relatrio.
	Gostaria muito, e apreciei sua franqueza. Como guarda florestal, teria de aprender as tarefas das patrulhas terrestres, fluviais e rodovirias, antes de ser posta novamente a bordo de uma aeronave.
E tambm teria de conseguir uma licena de motorista vlida para o Arizona. Acha que pode enfrentar tudo isso?
	Tenho certeza que sim! Sou boa motorista e sei nadar muito bem. Meus pais possuem um barco, c costumamos passar o vero esquiando no Lago Sloans.
	Otimo! Experincia com barcos  um requisito indispensvel.
Sabe cavalgar? Tambm temos as patrulhas montadas ao longo do Canyon.
	Fiz um curso de hipismo quando era mais jovem.
	Perfeito. Quer mesmo este emprego?
	E o que mais quero neste momento! Mas... Sr. Stevens, por que fui escolhida? Tenho vinte c seis anos de idade,, nenhuma ex
perincia como guarda florestal, c s frequentei a faculdade durante dois anos. Estou muito interessada no emprego, mas... No existem outros candidatos, mais qualificados?
Jim havia ficado em silncio durante alguns instantes, antes de responder:
	Foi muito honesta comigo, srta. Claybourne, c acho que tenho a obrigao de retribuir. H alguns anos, uma de nossas patrulheiras morreu num resgate no rio.
	Que horror!
	Foi um grande choque para todos ns. Ela tinha credenciais impressionantes, e havia trabalhado no corpo militar feminino de sua cidade antes de ser admitida como tcnica de emergncias mdicas no corpo de bombeiros. O histrico profissional de Sarah Wolf era impecvel. Infelizmente, seu primeiro fracasso lhe custou a vida c a dos trs turistas que ela tentava resgatar.
	Deve ter sido terrvel.
Podia imaginar o que ela sentira porque, embora estivesse sentada atrs de Dce no momento do acidente, no pudera fazer nada para salv-la.
Jim continuara:
	Ainda me sinto culpado por t-la contratado, mas como podia imaginar? Ela parecia absolutamente equilibrada! Voc no tem nenhuma experincia especfica mas, graas aos jornais, sei que  capaz de controlar-sc durante uma emergncia. O parque Grand Canyon precisa de pessoas como voc, capazes de suportar uma grande presso sem entrar cm pnico.. Podemos treinar os patrulheiros e ensinar todas as tcnicas necessrias, mas no podemos ensinar coragem e equilbrio.
	Nunca pensei em mim como uma mulher corajosa, sr. Stevens.
Apenas fiz meu trabalho da melhor maneira possvel.
	Eu sei, e  por isso que estou lhe oferecendo o emprego.
Quando pode comear?
Isso acontecera h duas semanas. Andrea fizera as malas, despedira-se da famlia, dos amigos c da pequena Emily, e entrara no carro para a viagem ao Arizona. Havia sido estranho deixar os lugares que conhecia desde a infncia, mas mal podia esperar para comear um novo captulo de sua vida.
E agora estava no Grand Canyon, ouvindo os gritos irritados no escritrio de Jim Stevens. Bem, pelo menos Jim falava baixo. Mas Kurt seguia exasperado, e os comentrios eram cada vez mais ofensivos.
	Voc pediu minha opinio sobre a nova turma, e estou dizendo o que penso. So todos aceitveis, menos a aeromoa.
	Comissria de bordo  Andrea corrigiu cm voz alta, mesmo sabendo que eles no a ouviriam.
Kurt estava ocupado demais com os prprios gritos.
	Jim, eu jamais contrataria uma boneca Barbic para ser guarda florestal!
Andrea arregalou os olhos ao ouvir o ltimo insulto. As mulheres da famlia Claybourne haviam sido abenoadas com uma beleza cls-
sica, realada pela herana viquingue que proporcionava a pele clara e os cabelos dourados. Tanto assim, que duas de suas primas trabalhavam como modelos. Sua me ganhara um concurso de beleza na juventude, e ela mesma fora convidada para fazer fotos na agncia onde as primas-atuavam.
Com sua altura c elegncia, os olhos azuis e os cabelos claros, estava habituada a ser avaliada apenas em funo da aparncia. Mas as mulheres da famlia Claybourne tambm eram capazes de enfrentar e provar o erro de qualquer homem que as julgasse incompetentes, e Andrea no era diferente.
O emprego seria dela, e ningum a faria desistir. Especialmente um homem capaz de julgar algum de maneira to precipitada.
	Vamos l, Jim, seja franco  Kurt insistiu.  Ela  parente de algum do governo? D-me uma razo, uma s razo pela qualquer contrat-la, e juro que no direi mais nada em contrrio.
Andrea sentiu-sc congelar. Havia pedido a Jim que no divulgasse seus feitos hericos, como os jornais nomearam. Algumas colegas haviam guardado os recortes, e pudera l-los durante as ltimas sesses com o psiclogo.
Um dos jornais havia publicado uma foto dela descala, correndo sobre a neve com Emily nos braos. A garota estava ferida e perdia muito sangue. A outra fotografia mostrava o corpo imvel de Dee sobre a pista gelada do aeroporto.
Andrea sempre ficava embaraada quando lembrava os comentrios que acompanharam a primeira foto. E a segunda sempre provocava perguntas mrbidas dos mais curiosos, coisas que ainda a perturbavam profundamente. Disposta a evitar novas ondas de sen-sacionalismo, pedira a Jim que mantivesse o acidente cm segredo.
	Dec e eu crescemos juntas, sr. Stevens. ramos como irms  justificara. Ainda podia lembrar-se de como a imprensa havia explorado o lao estreito entre ambas, a herona sobrevivente e a vtima fatal, e de como tudo isso a aborrecera.  No quero falar sobre com ela com estranhos. Dois meses se passaram desde aquele acidente, c duvido que algum ainda lembre meu nome. E gostaria de manter as coisas como esto, se no se importa.
Para seu alvio, Jim havia concordado.
E agora? Quebraria a promessa para convencer a colega sobre a convenincia de sua contratao?
	Estou esperando uma resposta. Jim  Kurt insistiu, a impacincia evidente ern seu tom de voz.
	Sinto muito, Kurt, mas vai ter de confiar cm minha capacidade de julgamento. Eu sou o dirctor de pessoal, e exero a mesma funo h mais de vinte anos. Sei o que esou fazendo.
Andrea respirou aliviada. A conversa foi dada por encerrada e os dois surgiram na sala de espera, onde ela mantinha-se sentada. O mais jovem aproximou-se com passos decididos, os olhos cheios cie desdm.
	Jim, voc sabe que eu confio em voc. Mas no posso dizer o mesmo sobre ela...
Andrea levantou-sc, encarou-o com a mesma expresso fria e abriu a boca para dizer alguma coisa. Mas Kurt foi mais rpido.
	S espero que ela no se transforme em outra Sarah Wolf.

CAPITULO II

Depois do comentrio feito uma semana antes, Kurt Marlowe sara sem dizer mais nada.
Jim a enviara diretamente  secretria para cuidardos documentos necessrios  admisso, embaraado demais para permitir possveis perguntas.
Desde ento, Andrea ficara atenta a qualquer oportunidade de encontrar Kurt Marlowe e lhe dizer algumas verdades, mas no voltara a ver o homem arrogante, de olhos desdenhosos e brilhantes cabelos castanhos. Talvez fosse melhor assim. Estava ocupada demais aprendendo as funes de seu novo emprego, e a ltima coisa de que precisava era uma discrdia com um colega, por maior que fosse a provocao.
Alguns dias mais tarde, Jim desculpou-se pelo comportamento de Kurt.
	Precisa tentar compreend-lo, Andrea. Kurt fala o que pensa, mas no damos importncia as suas exploses por dois motivos.
Um, ele  nosso melhor generalista.
	Generalista?
	Muitos patrulheiros so designados para dirigir, cavalgar ou supervisionar viagens pelo rio permanentemente. Tambm temos os que pilotam os helicpteros c os que treinam os novos integrantes da guarda. Kurt  um especialista em todas essas funes, e por isso no recebe designaes permanentes, ou parceiros fixos. Ns o usamos sempre que c necessrio, e no que for mais importante.
	E o segundo motivo?
Jim tornou-se ainda mais srio:
	Kurt ocupa um cargo bastante elevado no parque. Por causa de sua experincia e do conhecimento que adquiriu ao longo de anos, suas opinies tm muita importncia, especialmente quando o assunto envolve recrutas em treinamento. As vezes ele  brusco, rude, mas no tire concluses precipitadas. Kurt Marlowe  um brilhante instrutor c um homem absolutamente valioso. Tente no dar importncia aos insultos que ele costuma disparar por a.
Andrea tentava, mas o rosto arrogante recusava-se a sair de sua mente. Esforava-se para estudar todo o material que recebia sem permitir que a raiva a perturbasse, mas o esforo era intil.
Na sala de aula, cruzava c descruzava as pernas de forma incessante, ignorando os olhares admirados dos outros recrutas. No estava habituada a ficar sentada por muito tempo, e as cadeiras incmodas no tornavam a tarefa mais fcil. O short do uniforme, de um tecido grosso e resistente, ameaava cozinh-la no calor abafado de maio.
Irritada, concluiu que a situao era to incmoda quanto estar na cabine de um avio. O Grand Canyon, o maior espetculo natural do pas, estava bem ali fora e, graas ao treinamento, no pudera sequer conhec-lo como gostaria. Esperava muito mais do perodo de seis dias de treinamento.
Mas isso estava prestes a mudar.
O instrutor movia-se pela sala, c os recrutas pareciam ansiosos em suas cadeiras.
	Guardas, estou feliz cm anunciar que todos vocs foram aprovados no curso. Hoje sero apresentados ao colega veterano que os acompanhar no treinamento externo, e que os avaliar at o final do perodo experimental.
O instrutor moveu-se at a porta, passando pelas carteiras ocupadas pelos recrutas. Todos vestiam o short bege do uniforme, as meias at os joelhos e as pesadas botas. Ao contrrio dela, mantinham os chapus na cabea, enquanto Andrea preferira deixar o seu sobre a mesa.
	Primeiro lerei a lista com o nome de todos os recrutas, e depois direi o nome do veterano que acompanhar cada um. Assim que ouvirem seu nome, saiam e fiquem no corredor. A dupla ser a mesma at o final do treinamento, e o veterano dar a ltima palavra com relao  aprovao. Portanto, tratem o novo instrutor de acordo com sua posio.
Andrea franziu a testa ao ver Kurt Marlowc surgir na soleira. Mantinha-sc afastado dos outros patrulheiros, os braos cruzados sobre o peito, c olhou rapidamente para todos os novatos antes de fit-la diretamente. Recusando-sc a ser intimidada, sustentou seu olhar de queixo erguido, at que, balanando a cabea num gesto de desaprovao, Kurt virou-se c comentou alguma coisa com o colega mais prximo.
Quanta arrogncia!
Sabia que no havia nada errado com sua aparncia ou suas credenciais. Usava o uniforme como todos os outros, e tomara o cuidado de pass-lo com capricho, como fazia com os trajes da empresa-area. A maquiagem e as unhas tambm eram perfeitas, e os cabelos loiros haviam sido presos num coque atrs da cabea.
Admirada, notou que o uniforme de Kurt Marlowe era to bem passado quanto o dela. Seu rosto no tinha o menor sinal de barba, os cabelos eram cortados com preciso militar, e as botas brilhavam como se houvessem acabado de sair da loja. Seus olhos eram intensos c srios, e a linha da mandbula indicava uma personalidade forte e determinada. Duvidada da possibilidade de vir a gostar dele, mas sabia que no devia subestim-lo.
	Randy Wong, seu parceiro ser Frank Williams  o instrutor prosseguia, recitando os nomes da lista.  Ted Webster ir trabalhar com Felipe Mendez.
Andrea ouvia com ateno. No tinha nenhuma objeo a formar parceria com um homem, especialmente porque sabia que todos os veteranos eram do sexo masculino, bem como oito dos dez recrutas. Alm do mais, Jim j a prevenira sobre o tamanho do contingente masculino da guarda florestal. Oitenta por cento. As mulheres normalmente ficavam nos helicpteros, o que certamente aconteceria com ela em breve. De qualquer forma, Andrea j estabelecera uma agradvel relao com Judy, a nica outra recruta no grupo de treinamento.
	Judy Tcufel, voc ser parceira de Dan Prior. Andrea Claybourne, o veterano de sua dupla ser Kurt Marlowe.
No! Todos, menos ele!
Apesar do aborrecimento. Andrea manteve-se aparentemente calma e fez um sinal afirmativo com a cabea. Passara os ltimos cinco anos lidando com passageiros apavorados e histricos, c aprendera algumas coisas. Nada a faria demonstrar qualquer tipo de reao a uma coincidncia to cruel.
Coincidncia?
Lembrou-se dos comentrios que Kurt fizera no dia em que ela chegara, c sentiu-se queimar por dentro. Sc a julgava to inexperiente e desqualificada, por que aceitara a parceria? Ocupava um cargo importante, e devia ter o direito de fazer suas escolhas.
	Todos ao lado dos parceiros  o instrutor ordenou.  E boa sorte em seu primeiro dia no Grand Canyon.
Alguns alunos bateram palmas e assobiaram, mas Andrea contentou-sc com um sorriso forado. Sc tinha mesmo de aturar Kurt Marlowc, ento que fosse de cabea erguida. Decidida, encontrou-o no meio da pequena multido c aproximou-se,
	Sr. Marlowe? Sou Andrea Claybournc. Prazer em conhec-lo  e estendeu a mo.
	Uma mentira descarada, j que sabe que no aprovei sua contratao  ele respondeu, retribuindo o cumprimento rapidamente.
	Prefiro ser educada. A franqueza as vezes pode ser confundida com grosseria.
	Mais um ponto de discordncia entre ns. Amenizar os fatos faz parte das funes de uma aeromoa, mas aqui c diferente.
	Seu vocabulrio precisa ser atualizado. O termo carreto  comissria de bordo. Alm do mais. no estava me referindo a palavras amenas, sr. Marlowc, mas s boas maneiras e s regras de convvio social. Pessoalmente, acho que so compatveis com qualquer ambiente e situao.
Para sua satisfao, Kurt mostrou-se momentaneamente surpreso.
	Portanto, sr. Marlowe, se quer demonstrar sua opinio a meu respeito, sinta-se a vontade. Depois disso, talvez possamos dar incio ao nosso trabalho.
	Voc no tem as caractersticas necessrias para ser bem sucedida aqui. Olhe s para isso!  e apontou para ela.
	H algo errado com minha aparncia?
	No... Sim!
	Sim. ou no?  ela sorriu, erguendo uma sobrancelha.
	Voc  alta. mas no tem a fora fsica necessria.
	Fora fsica? No me lembro de ter visto esse requisito no anncio.
Kurt encolheu os ombros:
	Vai sair voando com a menor brisa. Duvido que consiga carregar uma mochila ao longo do Canyon, especialmente se ela estiver cheia de equipamentos,
AriUrea pensou em todos os feridos que carregara no dia do acidente areo c respondeu:
	As aparncias enganam, sr. Marlovvc.
	Sinto muito, mas espero mais que simples palavras para me convencer.
	Imagino que este seja o objetivo do perodo de experincia.
E j que  to desfavorvel  minha contratao, por que estamos trabalhando juntos? No consigo acreditar que tenha sido apenas uma coincidncia.
	E no foi. Eu escolhi voc, mocinha, porque pretendo coloc-la no primeiro avio para bem longe daqui.
	Por favor, substitua o mocinha por srta. Claybourne. Se eu ganhasse um dlar por cada passageiro que j me tratou desta forma, estaria vivendo na Riviera francesa.
	Certo. Posso trat-la como preferir, desde que no escolha patrulheira Claybourne. porque duvido que suporte os cinquenta e trs dias de treinamento que ainda faltam para merecer o ttulo.
	Pois est enganado, sr. Marlowc. Apostei tudo nesse emprego.
Pedi demisso da companhia area, vendi minha casa, deixei minha famlia c meus amigos, c no vou desistir com a facilidade que imagina.
	Eu acho que vai. Portanto, sugiro que comece a procurar uma nova casa e tente recuperar seu emprego de aeromoa.
	Comissria de bordo. E  bom que saiba, sr. Marlowc. Que se tentar sabotar minha experincia, contratarei o melhor advogado do pas, o melhor especialista em discriminao sexual, e mandarei voc c seu vocabulrio antiquado para os tribunais!
	Acho que est falando srio.
	Se no acredita,  s tentar.
	Eu acredito. Nunca sabotei ningum, srta. Claybourne. c no vou comear agora.
	Melhor assim.
	Ter as mesmas chances que todos os recrutas que j supervisionei.
	 s o que estou pedindo.
	Mas... No espere merecer o benefcio da dvida.
Dcsafiante, ela ergueu o queixo e brindou-o com um sorriso gelado.
	No espere que eu conte com ele. E agora... podemos comear?
Quinze minutos mais tarde, Andrea deixou sua cabana carregando uma mochila com gua, comida, material de primeiros socorros e algumas peas de roupa. No sabia o que a esperava e sentia-se ansiosa e cheia de expectativas, especialmente porque, pela primeira vez, veria o Grand Canyon de perto. Kurt Marlowe a aguardava perto da trilha da margem sul. conforme haviam combinado.
O Rio Colorado brilhava sob o sol forte, majestoso e imponente, e alguns turistas comeavam a caminhada em direo ao Canyon. Andrea ficou to envolvida pela beleza da paisagem, que Kurt teve de cham-la duas vezes antes de ser ouvido.
	Pegou tudo o que eu mandei? O cantil est cheio?
	Fiz tudo como recomendou. Podemos ir assim que quiser.
	Ento, vamos.
Quando comearam a caminhada, Andrea notou o azul intenso do cu e exclamou:
	Que dia maravilhoso!
	Voc no est aqui para discutir o clima, c sim para aprender.

	No posso fazer os dois?  ela perguntou, dizendo a si mesma que no devia deixar-se intimidar.
	Prefiro que preste ateno. Todos os recrutas precisam familiarizar-se com as trilhas, e a nica maneira de conseguir isso e percorrendo cada uma delas. Hoje iremos conhecer a trilha do Anjo Brilhante.

	Anjo Brilhante? Que nome adorvel!
Kur ignorou o comentrio.
	 uma das nicas duas trilhas entre a margem sul e o rio. A outra  chamada de Kaibab e. por serem as mais utilizadas, so os pontos onde mais registramos ocorrncias medicas.
	Os animais so usados nestas trilhas?
	Os animais so mulas, e normalmente as utilizamos nos resgates. Assim, podemos transportar os feridos com mais.rapidez, sem exp-los a desgaste desnecessrio. H um estbulo na margem sul e outro l embaixo, no vale do Canyon. Ver a caravana de mulas mais tarde, ou amanh, quando subirmos pela outra trilha.
	Est dizendo que vamos passar a noite no Canyon? Por que no me avisou?
	Pedi para trazer roupas, lembra-se? O que esperava? Um desfile de moda?
	Bobagem! Nada pode ser melhor do que isso!  ela exclamou, incapaz de conter-se.
Entusiasmada, escorregou e sentiu que o supervisor a segurava pelo brao, surpreendendo-sc com a qualidade do toque. Firme, quente e. ao mesmo tempo, gentil c delicado, o oposto do que esperava de um homem rude c grosseiro. Jamais experimentara uma conscincia fsica to intensa com um simples toque!
	Preste ateno!  ele a censurou, esperando que recuperasse o equilbrio para solt-la.
Andrea tentou readquirir o controle emocional com a mesma rapidez, mas no foi to fcil. Jamais sentira algo to intenso, especialmente com um homem que mal conhecia e de quem sequer gostava! Estava to confusa, que teve de fazer um grande esforo para ouvir o que Kurt dizia.
	O Anjo Brilhante c a trilha mais fcil que temos no parque.
No  sequer area, e se no puder venc-la, c melhor arrumar suas coisas c voltar para casa!
	Area?
Ele suspirou exasperado c explicou:
	Uma trilha area  aquela que a expe a alturas exacerbadas c abismos. Anjo Brilhante no oferece paisagens espetaculares e abertas, mas pelo menos no tenho que me preocupar com a possibilidade de voc despencar num precipcio.
	No precisa se preocupar comigo.
	No seria a primeira recruta a cair. Em Anjo Brilhante, temos duas casas de descanso e uma csiao de patrulha com todas as facilidades. As outras trilhas so mais primitivas.
	Posso superar todas cias  Andrea garantiu.
	A trilha tem vinte quilmetros de distncia, e voc j est escorregando. Sc comear a sentir bolhas nos ps, no tenha vergonha de dizer. Recrutas c botas novas so uma combinao geralmente dolorosa. Sc quiser, podemos parar na primeira casa de descanso para...

	No - necessrio  cia cortou, iniciando mais uma descida.
 Sou uma espcie de maratonista. O vo Nova York-Londres me obrigava a ficar cm p durante horas. Vamos deixar o descanso para a segunda casa, est bem?
	No sei. Depende de seu desempenho.
Andrea limitou-se a afirmar com a cabea. Kurt mantinha um ritmo constante, e em pouco tempo passaram pela primeira casa de descanso. Notando seus olhares constantes, ela tentou imaginar que tipo de homem seria. Se no fosse to crtico, talvez pudesse at ser uma companhia agradvel. Mas teria de passar quase dois meses trabalhando com algum que a julgava inadequada e incompetente, e isso a aborrecia.
Lembrando-se de todos os bons amigos que deixara no emprego anterior, Andrea suspirou.
	O que foi? Est cansada? Sabia que devamos ter parado na primeira casa.
	Eu estou bem. Por que est to preocupado?
	Voc suspirou, e achei que estivesse cansada. Descidas inclinadas como esta sobrecarregam as pernas, especialmente os joelhos.
A prxima parada fica a cinco minutos daqui. Acha que consegue chegar l?
	 claro que sim! De qualquer forma, obrigada por perguntar.
Apesar do que dissera, Andrea notou que ele reduzia o ritmo. Seguiram em frente at alcanarem a segunda rea de descanso, onde no havia gua ou qualquer outra facilidade. Kurt apontou para o espao protegido.pelas rvores frondosas c fez um sinal para que ela o seguisse.
	Pensei que encontraramos mais gente aqui  ela comentou, olhando cm volta c estranhando o nmero reduzido de pessoas sentadas no cho, tomando bebidas frescas dos cantis.
	S recebemos os grandes grupos a partir do prximo ms.
Scntc-s.e, mas no esquea de verificar se h alguma cobra. Estamos num local selvagem.
	O instrutor j nos disse isso durante as aulas, e  algo que eu jamais esquecerei. E no preciso de tratamento preferencial  protestou, sentindo que ele retirava a mochila de seus ombros.
	No primeiro dia, todos os recrutas recebem ajuda. At as aero...as comissrias de bordo. Coma alguma coisa, c no esquea de beber gua. A maior parte de nossas vtimas sofre de desidratao, o que significa que deve ingerir lquidos sempre que for possvel.
	Vou me lembrar disso.
Enquanto Kurt bebia gua do cantil que carregava na mochila, Andrea apanhou um espelho c examinou-se.
	O que est fazendo?
	Verificando a maquiagem, c claro!
	A menos que .esteja esperando encontrar um possvel marido, no vejo a menor necessidade disso.

	E se eu disser que acho necessrio?
Kurt encolheu os ombros:
	Continuaria afirmando que  uma enorme perda de tempo.
- Para sua informao, pessoas de pele clara queimam-se com enorme facilidade. Esta maquiagem possui filtro solar, como o batom, e no tenho a menor inteno de ficar vermelha e ardida s porque minha vaidade oofende. No quero que meu rosto fique parecido com um sapato de couro  c olhou para o rosto de Kurt com um sorriso significativo, analisando as marcas na pele cm torno dos olhos.
Mas nem as linhas profundas eram capazes de diminuir seu charme e...
. Irritada, Andrea disse a si mesma que no podia permitir que uma simples atrao a perturbasse.
Fechou o estojo do espelho com um estalo e guardou-o. Em seguida apanhou o cantil, abriu-o c encheu a tampa cm forma de copo.
	Voc pode beber dircto do cantil  Kurt comentou.
	Sim, mas tambm posso usar um copo  ela respondeu, antes de tomar dois goles de gua. Depois retirou um guardanapo da mochila, abriu-o c ajeitou-o sobre o colo.
	Um guardanapo?  ele exclamou.
	Fique tranquilo.  de pano, e no vai causar dano algum ao ambiente.
	Se no houvesse trazido um guardanapo, sua mochila estaria mais leve. Limpe a boca no dorso da mo.
	No. obrigada. No me importo com alguns gramas extras.
Kurt fez um rudo aborrecido que Andrea simplesmente ignorou.
	Quer um pedao de sanduche de carne?  ele ofereceu, abrindo a mochila.
	No, obrigada. Trouxe meu prprio lanche.
	No diga! O que escolheu? Pat? Caviar?
	Est zombando de mini, sr. Marlowe?  ela disparou, retirando uma embalagem plstica da mochila c abrindo-a.  Sc estiver, quero que saiba que no vou me deixar abater por to pouco.
	Oh, no! Eu s .estava... Isso  um croissant?
Andrea notou o sbito interesse nos olhos dele. especialmente quando viu o pequeno pote de gelia de framboesa.
	Exatamcnte. No  to substancial quanto o seu sanduche, mas aposto que  mais saboroso.
	Que tipo de mulher traz um croissant para uma caminhada?
	Est olhando para ela. Depois de tanto tempo comendo as refeies servidas pela companhia area, acho que mereo algo mais elaborado.
	Acho que sim  ele admitiu, deixando de lado o sanduche.
	Perdeu a fome?
	Tomei um bom caf da manh.
	Que pena! Trouxe mais croissants. c estava disposta a dividi-los.
	No, obrigado. Temos de nos apressar, ou no chegaremos antes do pr-do-sol.
Assim que voltaram  trilha, Kurt deu novas instrues com relao  descida fcil, apesar de estreita. Andrea o seguia de perto, espantada com a vegetao exuberante c com o perfume intenso das flores.
Durante as aulas, haviam dito que os animais maiores no eram vistos com muita facilidade. Coiotes, ursos, lobos e lees da montanha normalmente escondiam-se dos humanos, c o volume de visitantes interferia no habitat da fauna selvagem; por isso, todos recebiam instrues para procurar o patrulhe iro mais prximo, caso vissem um desses animais. O pessoal responsvel pela preservao ambiental mantinha uma ateno especial com os lees da montanha, comparando os ndices de natalidade com o fluxo de visitantes num esforo para conciliar os interesses humanos c animais.
Andrca jamais havia visto animais selvagens em seu ambiente natural. Embora no fosse ingnua a ponto de esperar ver um deles cm seu primeiro dia no Canyon, especialmente perto das reas de descanso, sempre mais movimentadas, estava entusiasmada o bastante para continuar procurando.
J estava perdendo o entusiasmo quando, uma hora mais tarde, notou um movimento sbito perto da trilha.
Pousando a mo no ombro de Kurt, obrigou-o a parar e virar-sc.
	O que foi? Algum problema?
	Fale baixo  e apontou para o loca! onde havia visto o movimento.  Aquilo c um burro?
Kurt olhou para a direo apontada c surpreendeu-se:
	Voc tem boa viso!
	Estava atenta a qualquer sinal de animais. E agora, o que vamos fazer?
	Vamos ver se podemos peg-lo.
	Peg-lo?
	Fale baixo!
	Desculpe, mas... Pensei que as regras do parque obrigassem os visitantes a relatar a presena de qualquer animal selvagem, inclusive burros.
	Isso  para os visitantes. Os patrulheiros devem peg-los.  Sorrindo, ele abriu a mochila, apanhou uma corda e garantiu: Confie cm mini. Isso vai ser divertido.
	No sei... Nunca disseram nada sobre pegar burros nas aulas tericas.
	Est nervosa?
	E claro que no! Apenas... apreensiva.
- Aprenda uma lio, srta. Claybourne. Esses burros no so animais nativos. Foram deixados no Canyon na poca dos pioneiros c, alem de fortes c resistentes, eles procriam como coelhos. Portanto, comem toda a vegetao c alteram o sistema ecolgico. Nem os punias conseguem manter a populao de burros estvel.
	E por isso temos de peg-lo?
	Exatanicnte.

	E depois?
	Depois vamos usar uma droga para tranquiliz-lo e lev-lo para uma rea reservada perto da margem. Para isso, usamos os helicpteros. O estado adota os animais selvagens para servios de agricultura c outras coisas parecidas.
	E os... doentes?
Kurt fitou-a de maneira significativa.
	Oh, no!
	Nosso veterinrio  muito humano. Venha atrs de mini e tome muito cuidado, porque teremos de sair da trilha para alcan-lo.
	O que devo fazer?  ela perguntou, seguindo-o atravs da vegetao e contornando as rochas.
	Venha atrs de mini. Tenho uma arma com tranquilizante c, depois de us-la, posso precisar de sua ajuda com os arreios.
	Pretende atirar nele? No pode simplesmente amarr-lo?
	No. Burros so pequenos, mas fortes c selvagens. Sc no o tranquilizarmos, ele pode nos arrastar ate o precipcio.
Assustada. Andrea agarrou o brao do instrutor:
	Isso j aconteceu?
	No, porque sempre usamos as armas com calmantes. Vai ter de aprender a manejar uma delas.
Embaraada, ela soltou-o c disse:
	V cm frente.
Kurt avanou at estarem a alguns metros do burro. Estava perto o bastante para atirar mas, para surpresa de ambos, o animal permanecia imvel.
	E s um filhote  Andrea constatou.  E est ferido!
	 uma fmea, c deve ter machucado a pata numa queda. Por isso no fugiu de ns.
	Onde est a me?
	Espero que esteja por perto. Esse filhote ainda deve estar mamando! Depois de usar o tranquilizante, vou ciar uma olhada pela regio.
Devagar. Andrea aproximou-se tio animal que. tremulo, deitou-se no cho.
	Deve estar com sede  opinou, erguendo a mo para acariciar o pescoo peludo.  No podemos dar gua  pobrezinha?
	No. A droga provoca enjoos, e c melhor deix-la de estmago vazio. Fique de olho no beb. enquanto tento encontrar a me.
Kurt foi pesquisar a rea c Andrea esperou paciente, os olhos atentos ao filhote de burro.
	No encontrei nada  Kurt disse minutos mais tarde.  Ou a me abandonou o filhote, ou... Talvez no exista mais uma me  c retirou os arreios da mochila, colocando-os em torno do corpo do animal.  Vou usar o rdio para chamar o helicptero.
	Espere! Antes de cham-lo... Eles no vo... Ela est doente e...
	E um filhote ferido, srta. Claybournc, c sem me. Sacrific-la c a atitude mais humana nesta situao.
	Humana? Eu chamaria de criminosa! Estava cm p quando a encontramos, o que significa que a pata no foi fraturada. E aposto que pode acostumar-sc com grania c rao cm pouco tempo.
	Andrea. somos patrulheiros florestais, no babs de burros!
No temos tempo para cuidar de todas as pequenas casualidades que encontramos. Sei que parece cruel, mas vai ter de acostumar-sc com nossas condies de trabalho.
	Nunca conseguirei me acostumar! Gostaria de poder lev-la comigo.
Kurt abriu a boca para censur-la, mas desistiu. Com um suspiro irritado, avisou:
	Vou chamar o helicptero.
Pouco depois, a apequena aeronave sobrevoava a rea c jogava um cabo de ao. que Kurt prendeu nos arreios que j havia ajustado em torno do corpo do animal.
Triste, Andrea viu o filhote anestesiado ser iado c levado pelo helicptero, c ficou imvel ate que ele sumisse alm das rvores mais altas.
	Pronta para voltar  trilha?
	Acho que sim.
	Sinto muito sobre o burro.  uma parte desagradvel do nosso trabalho, mas... At que ela era bem bonitinha.
	 verdade.
E Kurt Marlowe no era to duro quanto parecia ser.
	Falei com o piloto, c pedi a ele que dissesse ao veterinrio que o filhote parece ser forte. As vezes eles poupam um animal rfo, mas no c uma ocorrncia muito comum. Bem. vamos indo, ou no chegaremos antes do entardecer.
Andrea respirou fundo c afirmou com a cabea. Se Kurt podia assumir uma atitude profissional diante de um evento to triste, ento ela tambm agiria de acordo, ao menos na aparncia. Para isso, concentrou-se nas instrues que ele dava a medida em que progrediam na trilha.
	Uma das coisas que deve aprender  interagir com as pessoas que encontra nas trilhas. Sorria, converse e as observe. Assim, podemos detectar c prevenir os casos de insolao ou exausto. As vezes, alguns minutos de descanso c uns copos de gua podem significar a diferena entre sair caminhando ou ser carregado para fora do parque. E lembre-se, eles dependem do nosso rdio para conseguir ajuda. No existem telefones, c por isso temos sempre de verificar as baterias do equipamento.
	O instrutor repetiu a mesma coisa mais de mil vezes nas aulas tericas. Quando o calor c mais intenso por aqui?

	Em julho. A mdia de temperaturas atinge os trinta c cinco graus, e fica mais quente a medida cm que descemos. No fundo do Canyon. pode-se encontrar um calor de mais de quarenta graus  sombra. E  ento que as vtimas aparecem.
	Mas existem placas espalhadas pelo parque avisando sobre o calor. Por que os visitantes no tomam suas precaues?
	Por vrias razes  ele encolheu os ombros.  As vezes so estrangeiros, c no entendem o que est escrito nas placas. Os mais despreocupados no se importam cm parar no escritrio da administrao para apanhar os folhetos em diversos idiomas. As vezes so apenas teimosos, ou tolos. Qualquer que seja o motivo, a vtima tpica usa roupas inadequadas e no leva gua suficiente para enfrentar o calor.
	Acho que entendo.  tudo to bonito, fresco c agradvel, que ningum acredita nos avisos espalhados pelo parque. Agora mesmo, duvido que a temperatura seja mais alta do que vinte e dois graus.
	A sensao de frescor proporcionada pela vegetao engana, e vai comear a notar a diferena assim que descermos mais um
pouco, c as rvores c arbustos forem substitudos por extensas faixas de deserto.
	No sabia que havia uma regio desrtica por aqui. Nas aulas tericas, o instrutor concentrava-se em tcnicas de sobrevivncia, resgate e busca.
	 como deve ser. De qualquer fornia, seria bom se pudessem aprender um pouco mais sobre o ecossistema. A maior parte das pessoas no sabe que trs dos quatro desertos americanos convergem para a regio do Grand Canyon.
	Trs? O Canyon  to grande assim?
	Olhe para onde pisa, no para mim  ele a censurou.  O Canyon tem aproximadamente quatrocentos quilmetros de comprimento, sessenta de largura e mais de dois quilmetros de profundidade.
	Meu Deus! Por isso h espao suficiente para trs desertos!
	E por isso ele  chamado de Grand Canyon. Quanto aos desertos, o Sonoram corre atravs da rea central do Arizona, e sua vegetao tpica, composta por algarobos, pode ser vista na parte leste do Canyon.
	Qual  o segundo deserto?
	O Mohavc, que corta a regio Oeste do Canyon.  formado pela vegetao tpica das reas desrticas, o cctus, c  mais fcil de ser reconhecido.
	E o terceiro?
	O Great Basin, na parte mais alta do Rio Colorado. A margem e as maiores elevaes do Oeste do Canyon so formadas por uma faixa desse deserto.
	Mas... Se  aquele deserto que corta Nevada c Utah, ento deve haver pinheiros, zimbros e salvas em sua formao. So plantas tpicas do clima frio daquela regio.
	Exatamente. Como sabe disso?
	Sou de Dcnvcr, a terra da neve, c estive cm Utah para algumas temporadas de esqui.
	Pois aqui, jamais ver um esqui. Ainda no consigo entender por que uma garota urbana como voc abandonou tudo para viver num parque.
	Eu queria mudar minha vida  cia respondeu, apanhando o cantil da mochila c bebendo vrios goles de gua, sem se importar com o copo. A temperatura subia rapidamente.
	S isso?  Kurt perguntou curioso.
	No. H muito mais  ela admitiu, lembrando-se do acidente areo e do corpo imvel de Dce. Todos diziam que seria mais fcil lidar com as lembranas da tragdia depois de algum tempo, mas ainda no sentia-se forte o bastante para falar sobre o assunto.  Digamos que o destino me ajudou a tomar a deciso. Voc  daqui?

	Nasci em Phoenix e cresci no Arizona, sem irmos.
	E seus pais?
	Ainda esto vivos e com sade, para minha felicidade.
Ouvira alguns comentrios sobre Kurt Marlowc durante os intervalos das aulas c. curiosa, insistiu:
	Ouvi dizer que sua me  botnica, e que seu pai pilota helicpteros para uma estao de notcias de Phoenix.
	As informaes esto desatualizadas, srta. Claybournc. Meu pai aposentou-se recentemente.
	Foi assim que aprendeu a pilotar helicpteros?
	Sim. Meu pai me ensinou quando eu ainda era um garoto.
- Talvez ele esperasse que o filho seguisse seus passos...
	No  Kurt suspirou.  Eu sempre tive mais interesse na profisso de minha me, e cheguei a cursar botnica c estudos ambientais na universidade. Mame ficou entusiasmada, mas eu no quis ser seu scio no negcio de mudas de cctus. Queria um trabalho que combinasse botnica, helicpteros c muito contato com a natureza, e foi ento que ouvi falar na patrulha florestal.
	H quanto tempo isso aconteceu?
	Dez anos. Entrei para a patrulha logo depois de ter concludo o curso superior.
Ento, devia ter trinta e dois anos.
	Deve gostar realmente do que faz.
	Gosto, c voc faz perguntas demais. Devia estar atenta  trilha, e no ao meu passado.
Embaraada. Andrca percebeu que com portara-se de maneira indelicada c curiosa, c que sua atitude havia sido ditada pela necessidade de saber mais a respeito daquele homem.
	Conccntrc-sc no Canyon, sita. Claybournc, c vai tornar nosso trabalho muito mais fcil. E no permita que a beleza da regio a seduza, porque os perigos so muitos c fatais.
	Eu sei  ela disse, tentando esconder um arrepio.  Vi o que aconteceu com aquele filhote de burro. Sua pata...
	Estou falando da morte, srta. Claybournc. No so s os animais que morrem no Canyon, mas as pessoas!
Perder vidas humanas era uma parte triste do trabalho, mas um patrulhciro experiente como Kurt Marlowe j devia estar habituado. E no entanto, falava como se estivesse profundamente abalado.
	Eu j imaginava que fosse assim, mas... Por que...?
	Por que fico to perturbado com as mortes que no podemos evitar? Porque j senti uma delas na pele, srta. Clayboume. Sarah Wolf era minha esposa.

CAPITULO III

Kurt!  Andrca exclamou, chamando-o .pela primeiro nome.  Sinto muito. Eu no sabia.
	No? Todos sabem! Como sabem que eu fui o supervisor de seu treinamento  eledisse, o rosto cheio de dor.
Por isso falavam pouco sobre Kurt. Nem mesmo o mais voraz dos fofoqueiros teria a ousadia de revelar os detalhes da tragdia a uma novata.
	No quer saber como tudo aconteceu?
Andrca pensou cm Dee c lembrou-se de como estava feliz antes do acidente. Tambm lembrou-se de todos os outros, jornalistas c colegas de trabalho, ansiosos para saber os detalhes mrbidos a respeito da fatalidade, c de como sentira-se mal ao ser bombardeada pelas perguntas.
	No  respondeu.  Relembrar a dor no vai traz-la de volta. No  fcil superar algo to terrvel, especialmente quando...  quando se  incapaz de mudar as coisas. Minhas condolncias.
Kurt fitou-a durante alguns instantes, espantado com sua reao.
	Voc fala como se pudesse entender o que eu sinto.
	E posso.
Notou a curiosidade cm seu rosto c teve a impresso de que ele continha-se, embora no pudesse imaginar por que evitava as perguntas que certamente gostaria de fazer.  Se algum dia precisar conversar...
	No. Isso aconteceu h dois anos, srta. Claybournc, e no h nada que no tenha sido dito.
Andrca permaneceu em silencio, sabendo que esta era a atitude mais sensata.
 Vamos continuar  ele indicou.  Temos de alcanar a metade do caminho na hora do almoo.
Andrca afirmou com a cabea e seguiu-o, mais atenta s suas costas do que ao caminho onde pisava. Ento Sarah Wolf e Kurt haviam sido casados! Isso explicava sua atitude protetora c cuidadosa. Sofrera mais que todos com o acidente, porque perdera a esposa, enquanto os outros haviam chorado a morte de uma colega.
Se houvesse estado no local da tragdia, teria sido capaz de salv-la? Devia culpar-se por no ter podido fazer nada. De repente, uma pontada de inveja a fez esquecer a pena que sentia de ambos. Invejava o que haviam dividido, as coisas lindas que haviam conhecido juntos, coisas que, em sua solido, jamais experimentara.
Nenhum de seus relacionamentos durara tempo suficiente para deixar boas recordaes. Os pilotos com quem sara costumavam levar a atitude autoritria para o relacionamento pessoal, e havia sido ainda pior quando tentara aproximar-se de homens alheios  aviao. Assim que revelava sua profisso, todos passavam a agir como se fosse sexualmente disponvel.
E nada podia estar mais longe da realidade. Estava farta de homens que a tratavam como uma idiota, disposta a oferecer gratificao fsica rpida e fcil. Queria algo profundo c verdadeiro, c no dividiria sua cama com um homem antes de ter certeza de que era o escolhido por seu corao. Infelizmente, a mgica ainda no acontecera e, at que acontecesse, teria de esperar com pacincia.
Mas, desde a morte de Dee, surpreendera-sc olhando a vida de uma perspectiva nova. Estava ficando cansada de esperar pelo amor e, sentindo a passagem do tempo, decidira viver cada instante intensamente. Por isso havia deixado a companhia area e a cidade onde nascera. E, agora percebia, por isso sentira-sc ferida quando Kurt no lhe oferecera sua amizade.
	Como vai indo?
A pergunta sbita a arrancou dos devaneios.
	Eu... bem.
	Estamos quase na metade do caminho. Sc no precisar parar para descansar, estaremos l em quinze minutos.
	NO tempo previsto, chegaram  estao denominada Indian Gardcns. um local cercado por rvores, com um curral da mulas, uma rea para acampamento e um posto da patrulha.
	Vamos verificar o posto  Kurt indicou.  H outra dupla percorrendo a mesma trilha, c saram pouco antes de ns. Apesar do tempo que perdemos com aquele burro, eles ainda devem estar aqui. Quero conversar com o veterano c perguntar como vai indo o recruta. Prometo que, depois disso, descansaremos um pouco sorriu.
Era a primeira vez que sorria de verdade, c Andrca surpreendeu-se com o resultado. Mais uma vez, experimentou aquela estranha c forte atrao, c teve de admitir que, se j era bonito, o sorriso o tornava simplesmente devastador. Alm do mais, o sorriso significava que a aceitava como colega de trabalho, o que tambm era muito importante.
Depois do incidente com o filhote de burro e das chocantes revelaes sobre a morte de sua esposa, a sensao de calor que invadia seu corao era deliciosa.
Mais um recruta de seu grupo de treinamento estava no posto, acompanhado pelo supervisor. Kurt fez as apresentaes c os quatro sentaram-se  mesa para almoar. Andrca no conhecia o veterano Dan, mas j conversara algumas vezes com Judy, cuja personalidade exuberante c alegre conseguira vencer suas reservas naturais.
Desanimada, Andrea notou que Judy no estava to alegre quanto costumava ser. Seu nariz estava vermelho, os cabelos curtos molhados de suor. c era como se estivesse cansada demais at para conversar. Enquanto cia descansava, estendendo as pernas e reclinando-se na cadeira, Dan assumiu a palavra.
	Como vai indo a nova parceira?  perguntou, sorrindo para Kurt c mantendo os olhos fixos cm Andrca.
Sria, fingiu ignorar o evidente interesse do patrulheiro, musculoso e disponvel demais para seus critrios de escolha.
	At aqui, muito bem  Kurt respondeu com cautela, Andrea parece melhor que isso. Na verdade, parece fantstica!
Judy, podia conversar com ela c aprender algumas coisas. Est vendo? Nem um cabelo fora do lugar, batom impecvel... Gosto disso.
Judy respirou fundo, mais desanimada que antes.
Irritada. Andrea disparou:
	Judy c eu no estamos aqui para sermos julgadas pela aparncia, mas pela atuao profissional.
	Devia estar acostumada com a admirao masculina? No era aeromoa?
	Comissria de bordo  Kurt interrompeu.
Andrea sorriu, satisfeita com o comentrio, mas ficou novamente seria ao sentir que Dan ainda a observava com insistncia. Agia como se trouxesse a chave do quarto no bolso, preparado para pular na cama com a primeira que o aceitasse! Judy abaixou a cabea, Kurt suspirou irritado, c Andrea decidiu que j era hora de pr um ponto final na situao.
	Sim, eu era comissria de bordo. No imagina as histrias que posso contar...  piscou, como se estivesse disposta a dividir segredos picantes.
	Por favor, conte-as  Dan inclinou-se, tentando" chegar mais perto.
	Aprendi o andar especial da aeromoa  ela sorriu, notando a surpresa de Kurt ao ouvi-la pronunciar o termo ultrapassado.
	No sei se este  o melhor lugar para esse tipo de conversa, Andrea. Guarde suas histrias para quando estiver de folga  ele censurou-a.
Dan fingiu no ouvir o aviso do colega:
	Vamos l, Andrea. Mal posso esperar para saber do que est falando.
Andrea sorriu novamente. O idiota estava se colocando na linha de fogo!
	Toda aeromoa principiante aprende o andar especial. As pobrezinhas tm de ficar cm p quatro horas por dia, c os sapatos... J viu os sapatos que as empresas areas compram para suas funcionrias?
	Saltos altos  Dan suspirou.  O tipo de sapato que toda mulher devia usar.
	Exatamente. Dan, voc  to esperto! Quando as iniciantes so escolhidas para o primeiro vo de longa distncia, acabam aprendendo o andar especial da aeromoa.
	No consigo sequer imaginar...
	No?  cia sorriu. Em seguida, assumiu unia expresso seria c abandonou o tom meloso.  E quando as bolhas nos ps estouram c comeam a sangrar.  quando a meia de nylon gruda nos ferimentos, e a comissria reza para no chorar diante dos passageiros. Se quer uma demonstrao, por que no pede  recruta que est supervisionando? Isto , se puder concentrar-se nela novamente, de onde, alis, no devia ter desviado sua ateno.
Um silncio pesado caiu sobre o grupo. Judy moveu-se na cadeira, visivelmente embaraada, c Andrea tocou-a delicadamente na mo.
	Sei como est sofrendo, Judy, mas isto aqui no  um avio.
Pode parar quando quiser.
	Por que no me disse que tinha bolhas nos ps?  Dan explodiu, ansioso para descarregar a raiva que o sufocava.
Judy encolheu-se e segurou a mo de Andrea com mais fora. Incapaz de conter-sc, Kurt levantou-se e disparou:
	Deixe-a em paz. Dan! Sabe como todos os recrutas querem se dar bem. Eles escondem os problemas, mas voc iem experincia suficiente para perceb-los. Venha  disse, suavizando o tom de voz c aproximando-sc de Judy.  Vamos dar uma olhada nos seus
ps.
	Eu posso andar!  ela protestou, sentindo que Kurt preparava-sc para carreg-la at a mesa de primeiros socorros, do outro lado da sala.
	Pelo bem de uma ex-comissria de bordo, deixe-O carreg-la.
No sabe quantos vou ganhar com isso  Andrea brincou, conseguindo amenizar a tenso.
Judy afirmou com a cabea, e Kurt fitou a nova parceira com ar de aprovao.
Com cuidado, ergueu a recruta nos braos c levou-a at a mesa de exame, onde removeu uma de suas botas. Rpida, Andrea aproximou-se e cuidou da outra, removendo as meias c assustando-se com a extenso do ferimento.
Balanando a cabea com desnimo, disse:
	Seus pes esto arruinados, Judy!
	Dan, v selar duas mulas. Judy no pode mais andar, e vocs dois tero de cavalgar de volta  margem.
Envergonhado. Dan afirmou com a cabea c foi providenciar as mulas.
	Kurt. por que no vai ajud-lo? Eu posso cuidar de Judy.
	Eu cuido disso  ele insistiu cm voz baixa, reunindo o material de curativo que havia retirado do armrio.
Aproximando-sc dele, Andrea baixou o tom de voz e explicou:
	V ajudar Dan! Judy est embaraada, c duvido que possa conter as lgrimas por mais tempo. Ela no quer chorar na sua frente.
Por favor, Kurt, deixe a conservar seu orgulho  pediu, pousando a mo em seu brao.
Perturbado com o comportamento da recruta. Kurt entregou o material de curativo e disse:
	Tudo bem, mas no a deixe andar.
	Devo deix-la descala?
	Infelizmente, ela vai precisar calas as botas para cavalgar.
Coloque-as de volta, mas deixe os cadaros frouxos.
	Certo. Obrigada, Kurt.
Assim que a porta fechou-se atrs dele. Judy explodiu cm lgrimas.
	Agora serei demitida  soluou.  No consegui superar o treinamento.
	No seja boba!  Andrea censurou-a preparando a gaze e apontando para a porta.  Sc algum vai ser demitido por causa
desse episdio, garanto que no ser voc. Oua!
A voz de Kurt podia ser ouvida com clareza, c era bvio que no poupava palavras para dizer o que pensava da atitude do colega.
	Ele est furioso!  Judy comentou, encolhendo-sc c soluando.
	Kurt c temperamental. Devia ter escutado quando ele disse a Jim o que pensava sobre a contratao de uma cx-aeromoa. Eu pude ouvir tudo, e no estava nem na mesma sala!
	Pois eu prefiro um supervisor com voz forte, do que um com o ego inflado! Dan c adepto do haltcrofilismo, e passou a manh toda gabando-se dos quilos que c capaz de levantar.
	Pois acho que vai ganhar um novo supervisor  Andrea opinou, enquanto cuidava do curativo.
	Isso, se no perder o emprego.
	No vai perder nada! Enquanto no curar essas feridas nos ps, ter de ficar no porto, na bilheteria ou na patrulha motorizada, s isso. Depois, tudo voltar ao normal. Judy suspirou:
	Na bilheteria? Desisti de ser caixa de banco para vender bilhetes numa cabina fechada?
	Vai sentir-se cm casa  Andrea riu.  Alm do mais, c melhor do que sentir dor. Pronto. Tudo limpo, desinfetado e protegido.
	Agora no sinto tanta dor.
	Quer que eu calce as meias limpas, ou prefere fazer isso sozinha?
	Prefiro cal-las sozinha, obrigada.
Andrea foi buscar as meias limpas na mochila da colega e comentou:
	Kurt disse que deve manter os cadaros frouxos, mas no os deixe totalmente soltos. Caso contrrio, vai acabar perdendo as botas no caminho.
	Nunca cavalguei uma mula  Judy confessou, lutando com o par de meias.
	Nem eu, mas no me importaria de tentar. Seria melhor do que caminhar mais dez quilmetros.
	Se eu tivesse um parceiro como o seu, no me importaria com as caminhadas. Teve sorte, Andrea.
Sc Kurt no insistisse cm julg-la precipitadamente, poderia at concordar com a colega.
Kurt e Dan voltaram alguns minutos mais tarde para ajudar Judy. Depois de acomod-la, Dan montou c partiu na frente, puxando a outra mula num ritmo lento c cadenciado. Kurt usou o rdio para avisar o posto da margem sobre o retorno da recruta.
	Acha que ela ser demitida?  Andrea perguntou, assim que a dupla afastou-sc.
	Por causa das bolhas?  claro que no! Falando nisso, quero ver seus ps imediatamente.
No seja ridculo! Meus ps esto muito bem. No devamos estar a caminho. J passa da uma, e s percorremos metade da distncia at o fundo do Canyon.
Sente-se e tire os sapatos!  Kurt ordenou, mostrando a mesa atrs dela.
Irritada, Andrca suspirou c obedeceu.
	Pronto!  exclamou, mostrando os ps descalos.  Est satisfeito?
Segurando seu tornozelo, Kurt fez um exame detalhado e, desanimado, perguntou:
	O que fez neste p?
	Eu no fiz nada. Isso  consequncia da profisso que escolhi.
Ser comissria de bordo tem suas desvantagens, ao contrrio do que pensam por a. Lembra-se do andar especial? Eu no estava brincando. Saltos altos, meias de nylon e voos de longa durao so uma combinao Trgica para os ps.
	Mas... O ferimento era enorme, e deve ter infeccionado. E no entanto, no a vi mancar uma nica vez  surpreendeu-sc, deslizando o dedo pela cicatriz.
	Acho que me acostumei. Todas ns nos acostumamos  e puxou o pc,xabalada com a sensao provocada por aquelas mos.
 O outro p tambm c  prova de bolhas. Comparado ao meu antigo emprego, caminhar com botas novas c coisa de criana.
	Por que suportou tudo isso? Por que no desistiu?
	Porque era jovem, cheia de ideais, e estava cansada da escola e da casa de meus pais. Queria viajar, fazer novos amigos e encontrar um prncipe em seu cavalo branco. Bolhas nos ps era um preo que eu estava disposta a pagar.
	E agora?
	Exceto pelas bolhas, ainda quero as mesmas coisas  ela riu, terminando de calar as botas.
	Inclusive o prncipe e o cavalo branco?
No podia responder diretaniente, especialmente porque o prncipe encantado estava assumindo traos decididamente familiares.
	Podemos ir?
Para alvio de Andrca, no encontraram nenhum outro patrulheiro ferido no caminho. Ainda estava preocupada com Judy, e lembrava-se de t-la ouvido dizer algo sobre ter sido uma esportista em seus tempos de escola. Mas... seria o bastante? Que tipo de preparo fsico poderia ter uma caixa de banco? Havia algo de to suave em sua
nova colega, que sentia vontade de proteg-la contra os perigos do Canyon.
Por outro lado, no estava nem um pouco preocupada com o prprio desempenho. Conseguia conquistar o respeito de Kurt rapidamente c, embora ainda no a elogiasse, ele havia deixado de critic-la. No meio da tarde, quando pararam para mais um breve descanso, Andrea surpreendeu-sc ao prender os cabelos e comer mais um croissant sem ter de ouvir comentrios sarcsticos ou depreciativos.
Quando chegaram ao fundo do Canyon, no posto prximo do rio Colorado, a noite j comeava a cair.
	Como se sente?  Kurt perguntou, sentando-sc ao lado dela c sentindo a brisa fresca no rosto.
Andrca abriu os olhos e virou-sc para fit-lo:
	Muito bem. O ar qui  fresco, muito mais agradvel do que o das aeronaves, sempre to cheias de fumaa c perfume.
	Est cansada?
	No.
	Melhor assim. A rea de acampamento fica do outro lado do Colorado, c ainda temos alguns quilmetros a percorrer at a ponte.
Acha que vai conseguir?
	 claro que sim! Podemos ir quando quiser.
Kurt levantou-se c estendeu a mo. Andrca olhou para os dedos longos c fortes, e depois fitou o rosto do veterano.
	Ajudar uma recruta no  algo fora dos padres?  disparou.  Pensei t-lo ouvido dizer que no facilitaria minha experincia.
	Talvez tenha reconsiderado.
	Por qu?
	Porque voc cuidou de um atendimento no primeiro dia de trabalho, c sanou um problema que eu no havia percebido. Judy podia ter cado, ou sofrido uma inflamao grave, c Dan e eu seramos os culpados.
	Est admitindo que errou.
	Isso mesmo.
	Ajudar Judy era o meu trabalho. No mereo tratamento especial por ter cumprido minha obrigao.
- No. Mas por ter posto Dan em seu lugar, e com estilo... Isso merece um ponto positivo. No  a primeira vez que ele tenta assediar uma recruta. Infelizmente, a maior parte de nossa equipe  composta por homens, e alguns dos rapazes ficam um pouco... afoitos  riu.  Agora ele vai pensar duas vezes antes de assediar uma colega... ou ignorar uma recruta sob sua superviso.
Andrea aceitou a mo estendida e levantou-se:
	Est admitindo que uma ex-comissria de bordo pode ser competente em outros setores?
	Estou dizendo que talvez merea o ttulo de patrulheira. Judy teve sorte por voc ter aparecido na hora certa.
Mais uma vez, Andrea sentiu o calor que experimentara ao v-lo sorrir pela primeira vez. Relutante, soltou a mo da dele e fingiu ajeitar a mochila sobre os ombros.
	Fico feliz por saber que no  tipo de homem habituado a julgar as mulheres apenas pela aparncia.
	Sempre achei o crebro mais atraente que a beleza fsica, sita.
Claybourne, e voc foi abenoada com os dois. No fosse por Sarah, eu j teria perdido a pacincia com Dan.

	Est brincando!
Silncio.
	Vamos. Est ficando tarde.
Aliviada, Andrea seguiu-o de volta  trilha. Por um instante, sentira-se novamente como no incio da carreira, atnita diante do primeiro passageiro mais atrevido.
Estava acostumada a lidar com homens falantes e vaidosos, mas sabia que Kurt Marlowe no fazia parte desta categoria. Infelizmente, no tinha nenhuma experincia com homens como ele. Homens de convices fortes, honra, personalidade c coragem. Kurt era absolutamente diferente dos homens que havia conhecido.
E isso era o que mais a preocupava...

CAPTULO IV

Duas. semanas mais tarde, Andrea ainda estava perturbada com as palavras de Kurt. Desde que escapara do desastre areo, atirava-se  vida com vigor e seriedade exagerados, c agora sentia-se aflita com a atrao que sentia por ele.
No saber se ele experimentava o mesmo tipo de sentimento era ainda pior. Por que mencionara a esposa morta? Para preveni-la? Mesmo que tambm sentisse atrao por cia, podia estar disposto a evitar novos envolvimentos.
Andrea decidiu que a melhor maneira de lidar com a situao era no dizer nada. Tentou construir um bom relacionamento de trabalho com o superior, e ficou satisfeita ao nojar que fizera alguns progressos nas duas semanas anteriores.
Tambm aproveitava todas as oportunidades para observar sua interao com os outros, e notou que, ao conversar com os visitantes que encontrava nas trilhas, Kurt no era to socivel c talante quanto cia. No entanto, a preocupao que demonstrava com a segurana de todos era suficiente para compensar a falta de simpatia.
Com os outros patrulheiros, Kurt era o profissional perfeito. Sua experincia era reconhecida e respeitada por toda a equipe, que aceitava de bom grado seus conselhos c opinies.
E mesmo assim, Kurt podia ser irritante. Ainda tinham discusses 'requentes, como a que estavam tendo nesse momento.
 No quero v-la perto daqueles homens  ele ordenou.  Esto bbados, e eu posso cuidar disso melhor do que voc.
 Como? Provocando o grupo c levando uni murro no nariz?
Os dois haviam ido  rea de acampamento de Bright Angcl. cm resposta a unia reclamao. O que comeara como um inofensivo churrasco estava rapidamente transformando-se em confuso e tumulto, e os outros visitantes queriam a ordem restabelecida.
	Ningum vai me agredir. Fique aqui, e faa como estou mandando!
	No vou ficar aqui!  Andrca respondeu, caminhando ao lado dele.  Fui comissria de bordo, e tenho uma vasta experincia com bbados. Se chegar perto daquele grupo com esse ar autoritrio, s vai conseguir piorar as coisas. Caso ainda no tenha notado, esto cm nmero maior do que ns.
	Eu sei contar, mocinha, e j fiz isso antes.
	No tantas vezes quanto eu, c aposto que no achou a soluo to fcil quanto imaginava.
	Lidar com bbados nunca c fcil.
	Pode ser, se souber tomar a atitude adequada. Por favor. Kurt, me deixe ajudar!
Kurt cruzou os braos sobre o peito e virou-se, mas teve de abaixar-se para evitar uma garrafa vazia que voava em sua direo.
	Quer chegar perto daquele bando de brbaros?  perguntou incrdulo.
	E o meu trabalho!
	Pois bem, faa como quiser. Mas no diga que no avisei.
	Assim  melhor. Siga-mc  sorriu, caminhando em direo ao grupo.
	Ol, doura!  um deles gritou.
Assobios e aplausos seguiram-se ao comentrio do primeiro bbado.
	Ol, bonito  Andrca respondeu, ignorando as gargalhadas dos outros.  Estou desapontada, sabe? Uma festa to animada, e ningum me convidou. Onde esto suas boas maneiras?
Atnitos, todos entreolharam-se em silencio, sem saber o que dizer.
Aproveitando a oportunidade. Andrea aproximou-se da mesa de piquenique c examinou o contedo das cestas c sacolas.
	O qu? S duas cervejas? Que tipo de festa  esta?
	 uma comemorao das frias de vero  um deles explicou.
 Estamos cansados de exames c provas na faculdade.
Consciente da presena de Kurt s suas costas, ela sentou-se sobre a mesa c prosseguiu:
	Isto no  uma testa de universitrios.  uma comemorao tpica de garotos do ginsio! Sem cerveja, sem garotas...
	Voc est aqui  um dos rapazes gritou.  Por que no fica conosco?
Tentou colocar o brao sobre os ombros de Andrca, mas o olhar hostil de Kurt o fez mudar de ideia.
De maneira casual, ela segurou a mo de Kurt c entrelaou os dedos nos dele.
	Desculpe, mas j tenho um namorado. E voc? 
	As garotas partiram  disse outro estudante, levantando-se com dificuldade.  Disseram que no haviam vindo at aqui s para embriagar-se. Mas. mesmo sem elas, esta ainda c uma grande festa!
Os outros gritaram, concordando com o companheiro.
	No sei  Andrca duvidou.  Grandes festas precisam de mais cerveja. Vocs s tm duas!
	Temos mais  um deles confessou, entusiasmado com a presena feminina.
	Sinto muito, mas no acredito.
Dois minutos mais tarde, diversas garrafas de cerveja haviam sido retiradas da barraca c colocadas sobre a mesa. Andrea permanecia perto de Kurt. sentindo a mo dele cm sua cintura.
	Vou pedir reforo pelo rdio  ele sussurrou.  Essa bebida tem de ser confiscada, e eles ficaro furiosos quando descobrirem que a festa acabou.
	Deixe isso comigo  cia respondeu no mesmo tom, desapontada por perceber que ele ainda estava mais interessado no grupo do que nela, apesar de todas as coisas que sentia. Virando-se para o grupo, exclamou:  Vocs tm razo! Esta  mesmo uma grande festa!
	Tome uni cerveja conosco, patrulheiro  um deles convidou.
	Tenho uma ideia melhor  Andrca respondeu depressa.  Por que no guardamos toda essa bebida para mais tarde, quando as garotas voltarem?
A sugesto foi recebida de diversas maneiras.
	Se quiserem, meu amigo c eu podemos guardar tudo isso na geladeira do posto de patrulha.
	J entendi!  um deles gritou.  Voc c uma desmancha prazeres, c quer estragar nossa festa! .
	Receio que sim, rapazes  ela sorriu, notando que mais quatro patrulheiros haviam chegado ao local.  Mas sou uma desmancha prazeres simptica, ou j teria preso todos vocs por desordem e bebedeira cm um parque pblico.
Estava dizendo a verdade. Tinham poder para efetuar prises, c costumavam efetu-las a cada vero, sempre por porte de drogas c ingesto de bebida alcolica no parque.
	Esses patrulheiros vo levar a cerveja para o posto, onde podero apanh-la quando estiverem partindo  ela anunciou.  Enquanto isso. tratem de recolher todas as latas e garrafas que jogaram no cho.
Aos poucos, os rapazes comearam a recolher o lixo, enquanto os outros visitantes aplaudiam a atuao da patrulheira Claybour-ne.
	Est vendo?  ela perguntou, virando~sc para Kurt com um sorriso.  Eu disse que seria fcil.
	Eu... no entendo! Como conseguiu?
	Isso no  nada. Sc soubesse como eram os voos fretados por torcidas organizadas de alguns times de futebol! Sem falar nos noturnos, destinados basicamente aos empresrios. Francamente, espero no ter de lidar com esse tipo de gente com muita frequncia.
	Esquea!  Daqui para a frente, sempre que formos chamados para lidar com um grupo de bbados, voc ser a primeira a ser convocada! Quero preservar o nariz dos patrulheiros  Kurt riu.
Vinte minutos mais tarde, a ordem havia sido restaurada.
Enquanto retornavam ao Phantom Ranch. seu posto de trabalho nesse dia. Kurt avisou:
	Eles jamais tero aquela cerveja de volta. No, se eu puder evitar!
	Faa como quiser. Voc c o chefe aqui, lembra-sc? Alm do mais. aqueles rapazes no vo lembrar metade do que eu disse.
	Duvido que lembrem um quinto!
	Sabe de uma coisa? No sei como algum pode percorrer toda essa distncia at aqui s para embriagar-sc.
	Normalmente, esse tipo de problema aparece nas reas de acampamento da margem, no no fundo do Canyon. O lcool  permitido em alguns parques nacionais, e a venda  livre na parte mais alta do parque. Infelizmente, algumas pessoas ficam mais interessadas na bebedeira do que na paisagem.
	Deviam ficar cm casa.
	 o que penso. Na verdade, acho que as autoridades deviam limitar o nmero de visitantes dentro do parque.
	Est brincando!
	No. E claro que  s minha opinio pessoal, algo que jamais direi aos recrutas  e indicou a sombra de uma rvore, onde foram sentar-se.
	Est mesmo falando srio?  cia insistiu.  Teria coragem de limitar o nmero de visitantes? .
	Por que no?  o que os maiores parquees do mundo costumam fazer. Durante a temporada, temos ate quarenta mil visitantes por dia. Engarrafamentos de trnsito, problemas de estacionamento, hotis lotados, e um pssimo atendimento nos restaurantes da rea.
	Mas isso s acontece no vero, no c?
	O prejuzo que o Canyon sofreu no ltimo vero durou o ano todo, Andrca! Sabia que, de cada quatro espcies de plantas registradas no parque, duas j esto cm extino?
	No.
	E as outras duas sofrero o mesmo destino. Permitir um fluxo to volumoso de visitantes  prejudicial  ecologia. Seu instrutor no disse q-ue deve tratar toda a gua que beber?
	Sim, disse.
	Pois nem sempre foi assim. O movimento de visitantes encheu o Colorado de lixo, e agora temos de usar tabletes de purificao para usar sua gua.
	Sei que c uma pena. mas no pode fechar o Canyon! Seria o mesmo que negar a milhares de trabalhadores a oportunidade de ver uma das paisagens mais lindas do mundo! Alm do mais, por no ser um parque nacional, o Canyon no sobreviveria sem o dinheiro do pblico que o visita.
	O Canyon jamais precisou de dinheiro federal para sustentar-sc.
	Sim, e de acordo com as aulas que tivemos, as runas indgenas foram atacadas por vndalos, os burros selvagens prejudicam o delicado equilbrio natural, e as pessoas continuam vindo ao Canyon, apesar de tudo isso. Pelo menos o governo oferece alguma fora de organizao. Ns!
	Este  um ponto de vista muito idealista, Andrca! Na verdade,  o que todos pensam por aqui. Pessoalmente, acho que, quantos menos visitantes foram admitidos, melhor.
	Sc pensa .assim, no sei como pode continuar trabalhando aqui.
' J recebi diversas ofertas para atuar no grupo de proteo ao meio ambiente do Canyon. Esta  minha especialidade, c o Grand Canyon precisa mesmo de muita proteo. No posso dizer que no me senti tentado, mas... Algum precisa proteger as pessoas que vem ao Canyon, tambm. Sabe quantas vtimas tivemos no ano passado?
	Cem?
	Mais de mil!
	Mil?  ela repetiu alarmada.
	Exatamcnte. Novecentas foram removidas no lombo das mulas.
Cerca de uma centena, atravs do helicptero. Dez foram retiradas do parque nos automveis do estado, e as cinco restantes, todas vtimas de abuso do lcool, foram retiradas cm sacos plsticos. E o pior  que as estatsticas se repetem ano aps ano.
	Mesmo assim... No posso concordar com a ideia de impedir a entrada dos visitantes. Isso c como retirar as grandes obras de arte dos museus c esconde-las em pores! As pessoas tem direito a apreciar a beleza.
	E tambm tm o direito de poluir a gua, colocar cm perigo a vida animal c vegetal, sem falar delas prprias?
	 claro que no! Mas no se pode destruir a macieira por causa de alguns frutos podres.
- Ah, no! Devia saber que seria impossvel discutir ecologia com uma...
	Com uma ex-comissria de bordo? Com algum que servia drinques aos passageiros?	. .
	Eu no disse isso.
	Mas pensou!  c levantou-se, tentando esconder a dor.
	Andrea, voc no entendeu!
	Entendi perfeitamente. Sou esperta o bastante para lidar com bbados, mas minha inteligncia no  suficiente para formar opinies prprias.
	Andrea, espere!  ele chamou, vendo-a afastar-se com passos decididos.
	Por que? Tem medo que a aeromoa burra acabe se perdendo?
 el gritou, sem sequer olhar para trs.  Ando por essas trilhas h duas semanas, c acho que j posso encontrar o caminho de volta sem sua ajuda.
	Quer parar de correr? Vai acabar quebrando uma perna! No tive inteno de ofend-la!
	No seja pretensioso! Estou com raiva, s isso.
	Por favor, aceite minhas desculpas. No quero que um comentrio impensado prejudique nosso relacionamento profissional.
	No precisa deseulpar-sc. Basta me deixar dizer o que penso sobre o Canyon!
	Mas voc est errada! Sei o que estou dizendo  e segurou-a pelo brao, obrigando-a a parar.
	O Canyon pertence  nao, c no a voc!
	Mas eu sei o que  melhor para o parque!
	Nesse caso, devia aceitar o emprego no grupo de proteo ambiental. Parece, patrulheiro Marlowc, que est do lado errado da cerca!
Talvez esteja, mas no preciso de uma recruta me dizendo o que fazer!
Furioso, soltou-a e seguiu em frente com passos rpidos, deixan-do-a para trs.
Phantom Ranch era o nico local com algum conforto abaixo da margem. Os visitantes podiam alugar camas nos quartos simples com chuveiros, ou sutes mais confortveis c espaosas, onde era possvel ter mais privacidade c ate algum luxo. A comida e os suprimentos eram vendidos no restaurante do conglomerado, c havia ate um lago e uma piscina onde se podia nadar.
Andrea e Kurt passariam a noite no alojamento de Phantom Ranch. Haviam percorrido a regio a p, enquanto Judy e Dan haviam seguido cm direo oposta cavalgando, c no dia seguinte inverteriam as posies. At l, os quatro descansariam no posto. Felizmente, ainda havia espao de sobra nesta poca do ano, c as duas mulheres dividiriam um quarto espaoso c confortvel. Os homens ficariam com outro, nas mesmas condies.
Andrea esperava com ansiedade pela primeira cavalgada, c agora que o dia chegara, seu humor havia sido arruinado. NO entanto, ao ver as mulas no curral, sentiu-sc um pouco mais animada, pois agora sabia que Judy j estava no alojamento. Seria bom ter algum com quem conversar, algum que no a proibisse de expressar suas opinies. Ansiosa, dirigiu-sc ao quarto que ocuparia e, ao passar por Kurt, limitou-se a cumpriment-lo com frieza c distanciamento.
	Ol, Judy! No nos vemos desde a ltima vez cm que subiu numa mula!
	No me faa lembrar  ela gemeu, deitando-sc na cama confortvel.  Naquele dia. senti dores horrveis cm locais inominveis, c hoje no me sinto muito melhor. Felizmente no serei obrigada a subir naquelas bestas novamente amanh.

	Elas so bem bonitinhas  Andrea riu, sentando-se na nica cadeira do dormitrio.  tem clios longos, olhos brilhantes...
	Andrea, por favor! Vamos ver se estar dizendo o mesmo dentro de vinte e quatro horas! Por que no instalam banheiras neste lugar? Um chuveiro no vai resolver meu problema.
O que acha de um mergulho? Se nos apressarmos, ainda podemos chegar  piscina natural antes dos outros.
	Sabe como chegar l?
	 claro que sim! Esta c uma das vantagens de fazer a patrulha a p. Tem um maio?
Judy afirmou com a cabea.
	Ento, vista-o c vamos nos refrescar.
	Vou tomar uma aspirina, c estarei pronta em cinco minutos.
Andrea e Judy encontraram a piscina vazia. Uma pequena depresso entre as rochas, o lugar era perfeito para relaxar c refrescar-se.
	E melhor que entrar na fila do chuveiro  Judy comentou, jogando a gua fria no rosto.  Depois disso, quero usar a energia que me resta para puxar os lenis sobre o corpo.
	Estou surpresa com todo esse cansao  Andrea franziu a testa.  Seus ps no melhoraram? Voc passou dais na patrulha rodoviria!
	Meus ps esto timos. E quanto ao resto do corpo, ainda no me acostumei com o esforo fsico. Passei duas semanas sentada naquele maldito Jecp, e vou precisar de alguns dias para entrar cm forma.
	Entendo  Andrea riu, soltando os cabelos e deixando-os cair livres pelas costas.  Felizmente o final de semana se aproxima, e ento poder descansar,
	Descansar? Eu trabalho nos finais de semana. Voc no?
	No.
	Nunca? Mas c quando o parque fica mais cheio. Todos os patrulheiros trabalham!
	 mesmo? Eu nunca fui convocada.
	Sorte sua! Minhas folgas so durante a semana, c sempre cm dias alternados.
	Deve ser porque meu supervisor lambem tira folga nos finais de semana. No podemos trabalhar em dias diferentes, concorda?
	Sim, deve ser isso. Kurt tem muita autoridade no parque.
Gostaria que Dan fosse c<>mo ele, sabe? S temos folgas s teras c quintas, e eu nunca consigo sair daqui, no posso ir para casa c voltar no mesmo dia.
De repente, Andrea tentou imaginar onde KUrt passava seus dias de folga. Embora ocupassem sempre o mesmo alojamento, jamais o vira nos finais de semana.
	Andrea?
	Oh, desculpe, Judy. Estava... distrada. A propsito, como tem sido seu relacionamento com Dan?
	Considerando os antecedentes, at que estamos indo bem  ela sorriu.  Graas a Kurt, Dan tem at me ajudado. S gostaria de ter conseguido faz-lo desistir do dia horrvel que passamos sobre aquelas mulas.
Andrea viu Judy estremecer, embora a gua estivesse morna c a temperatura, alta.
	Sabia que as mulas gostam de andar perto da beirada da trilha? Judy perguntou.
	Perto da beirada? Do precipcio?
	Isso mesmo. Pode se cansar de puxar as rdeas, que elas sempre voltam para perto da beirada. O responsvel pelo curral disse que c impossvel obrig-las a seguir por outra parte da estrada.
	Que estranho. Sabe por qu?
	As mulas tem os olhos no lado da cabea. A parede parece um obstculo para seu tipo de viso e. por isso, cias se afastam dela.

	Espero que possam ver o precipcio. Pensando bem. Nunca ouvi falar d uma mula que houvesse cado da trilha, nem mesmo das areas. Portanto, no vou me preocupar.
	Sorte sua. Eu odeio lugares altos. Andrea!
	Tem medo de altura?  ela surpreendeu-se.
	No exatamente. S tenho medo de estar sobre uma mula que insiste em caminhar  beira de um precipcio. Qualquer dia desses, vou ver se consigo ter bolhas cm algum lugar que me impea de cavalgar.	
	No est gostando do trabalho, Judy?
	... muito difcil, mas acho-que vai melhorar quando eu conseguir me acostumar.
,  Voc ainda pode voltar para o banco, ou fazer qualquer outra coisa. Existem muitos empregos que uma mulher inteligente como voc pode conseguir.
	Eu sei. mas odeio desistir. Especialmente porque Dan insisite em dizer que no tenho as aptides necessrias para ser uma patrulheira.
	Judy, por que decidiu ser patrulheira?
	Problemas,,. - ela hesitou, antes de revelar toda a verdade.
 Meu chefe apaixonou-se por mim. e era casado. Disse a ele que no estava interessada nesse tipo de envolvimento, mas ele se negava a me deixar cm paz. Acho que se pode dizer que fugi de casa. Bobo no ?
	Mas... por que este emprego? Por que aqui?
	Eu queria um lugar onde meu antigo chefe no pudesse me encontrar. Conheo algum que j trabalhou aqui. c essa pessoa me disse que eles precisam de mais mulheres para equilibrar a equipe.
Sempre gostei de acampar, praticar esportes c coisas do tipo. A nica coisa que realmente me incomoda so as mulas. De qualquer maneira, todos os meus amigos disseram que eu seria uma excelente patrulheira.
	E voc, Judy? O que pensa sobre isso?
	Vou me acostumar  ela afirmou, levantando-se e encolhendo-se ao sentir mais um arrepio.   quase hora do jantar, c combinei encontrar Dan no refeitrio. Quer vir comigo?
	Prefiro ficar aqui mais um pouco. Nos vemos mais tarde, est bem?
	Est bem.
Andrea viu a colega partir e sentiu pena dela. Como algum podia considerar a vida num lugar desse difcil? O Canyon tingia-sc de vermelho sob os ltimos raios de sol que infiltravam-se atravs das rochas, dois quilmetros acima.
Era tudo to lindo, que jamais deixaria o parque. Nunca!
Seu devaneio foi interrompido pela voz de Kurt:
	No vai jantar?
Surpresa. Andrea virou-sc e viu que ele usava roupas limpas, e que os cabelos haviam sido lavados recentemente.
- Sim,  claro  respondeu, sentando-se e erguendo o corpo.
	Quando?
	Mais tarde. Judy disse que fomos convidados para jantar com cies. c Dan deve estar esperando. Sc quiser ir sem mim. sinta-se a vontade.
Depois da discusso sobre ecologia, prometera que o trataria com cortesia, mas de maneira mais distante c absolutamente profissional. Como resultado, as palavras soavam rudes e frias.
Mas Kurt no se deixou abater. Em vez de partir, sentou-se sobre uma das rochas  beira da piscina e insistiu:
	Devia aceitar o convite. Afinal, Judy precisa de ajuda.
	Ah, no sei... Depois daquele incio desastroso, parece que os dois esto conseguindo entender-se.
	 mesmo?  ele encolheu os ombros.   natural. Com tantos homens por perto, todas as mulheres acabam encontrando um parceiro. Exceto voc... No parece muito interessada em misturar romance e trabalho.
	Considerando meu passado profissional e a viso distorcida que tenho a respeito de ecologia, devia estar feliz com a sorte de seus colegas  Andrca respondeu com sarcasmo..
	Eu no disse nada disso.
	No com as mesmas palavras, mas conseguiu transmitir a mensagem.
	Peo desculpas novamente.
Andrca permaneceu cm silncio, os olhos fixos na gua.
	Droga, Andrca! Quer fazer o favor de olhar para mim!
Respirando fundo, ela fechou os olhos e tentou manter a calma, mas o som da gua a surpreendeu, obrigando-a a abri-los novamente. Kurt estava diante dela. as mos envscus braos.
	Suas botas!  ela exclamou, cedendo  presso e levantando-se.  Kurt, tire as mos de cima de mini!
	Eu no quis ferir seus sentimentos, Andrea!
Os olhos estavam a milmetros de distncia, e era possvel ver a sinceridade que iluminava os dele. De repente, algo mais intenso e doce substituiu o brilho de sinceridade, algo que ela no podia ignorar. Os lbios encontraram-se, os braos enlaaram os corpos, e Andrea fechou os olhos para saborear aquele beijo.
Foi Kurt quem rompeu o encanto e afastou-se. A sensao de estar novamente sozinha era to horrvel, que Andrea teve de virar-se para recuperar o controle.
	Desculpe  ele murmurou, interpretando o movimento sbito de maneira equivocada.  Isto no devia ter acontecido. Quero dizer... S queria deixar claro que tem direito a expressar suas opinies.
	Eu entendo  cia respondeu em voz baixa.  Vamos fingir que a culpa  do entardecer.
Mas no fora o fim de tarde que a fizera corresponder ao beijo. No podia sequer dizer que era apenas uma questo de qumica, porque a situao no era to simples. Havia algo entre eles, algo que ainda no conseguia definir ou nomear, mas que era forte o bastante para perturb-la.
Fitaram-se por alguns instantes c, desesperada para quebrar o silncio que os envolvia, Andrca disparou:
	J que mencionou opinies, posso manifestar mais unia?
	Sim, c claro.
	Estou preocupada com Judy. Sei que Dan e Jim iro julgar suas habilidades, mas ela parece to... to...
	O que?
	No sei. Perdida c a melhor palavra que me ocorre no momento.
Sei que tambm sou uma recruta e que ainda tenho de provar minha capacidade, mas estou realmente preocupada com ela.
	O que quer que eu faa?
	Converse com Dan, c pea a ele que fique de olho em Judy.
Eu mesma pediria esse favor, mas no sei se Dan me ouviria.
	No. A menos... Fique sossegada, Andrca. Prometo que terei uma conversa com Dan depois do jantar.
	Obrigada.
	Falando cm jantar, tem certeza de que no quer vir comigo?
Andrca quase aceitou, mas ainda estava perturbada demais para sentir-se segura ao lado dele.
	No, obrigada. Quero me refrescar mais um pouco.
	Sc prefere assim... Vou deixar isso aqui  indicou, abaixando-se para colocar uma toalha c uma lanterna sobre a rocha mais plana.
	No precisa se preocupar!
No quero que minha recruta pegue pneumonia ou quebre uma perna por andar no escuro. Boa noite, Andrca. Ate amanh.
Andrca o viu partir com uma mistura de alvio e tristeza.
Alvio, porque aqueles braos j no envolviam seu corpo, provocando estranhas sensaes. E tristeza... pelo mesmo motivo.

CAPTULO V

O sol mal havia nascido, e Phantom Ranch j fervia de atividade. Andrca fazia o possvel para man-ter-se atenta mas, entre a preocupao com Judy, a lembrana do beijo de Kurt e a ansiedade provocada pela primeira patrulha montada, s conseguira dormir tarde da noite. Conscqcntemcnte, havia acordado mais tarde que os outros, e tivera de correr para preparar-sc, tomar caf e chegar ao curral a tempo de escolher sua mula.
Judy tambm estava no curral, c aproximou-se para cumpriment-la.
	Boa dia, Andrea. Tentei acord-la mais cedo. mas voc parecia desmaiada. Fico contente por ter conseguido alcanar os outros.
	Eu tambm!  ela riu.  Kurt teria um ataque se eu perdesse minha primeira patrulha montada. Por acaso o viu por a?
	No. Ele no tomou caf conosco.
	Ah... Bem, deve estar chegando. Bom dia. c espero que goste da caminhada. Estou feliz por poder seguir no lombo de uma mula.
	Deus me livre! Bestas mal cheirosas e estpidas! Nos vemos l em cima, Andrca. At mais tarde.
Andrea acenou c ficou pensando no comentrio da colega. As mulas tinham o cheiro tpico de todas as montarias, e o pelo brilhante indicava que eram saudveis c limpas. Mais uma vez. Judy s conseguira ver o lado negativo da questo.
	No ligue para ela, meu bem. Voc  uma gracinha sussurrou, afagando o pescoo do animal.
Que coisa mais esquisita para se dizer a uma mula!
	O que? Oh, Kurt... Bom dia.
	Dormiu bem?
	Como um bcb. Estou pronta para partir.
	Precisa de ajuda para montar?
	No. obrigada. Eu sei cavalgar  c montou, provando o que dizia.
	Vou controlar o final da caravana, e quero que esteja sempre  minha frente, Por isso. deixe todos os outros passarem, e s ento ns os seguiremos.
Andrca afirmou com a cabea, afagando o pescoo da mula.
	Mais alguma coisa?
	Algumas. As mulas tm sua prpria rotina. Fizeram esta mesma viagem centenas de vezes, o que significa que j decoraram o caminho. Assim que chegarmos  trilha, no tente controlar o animal.
Deixe que ela siga o da frente.
	Entendi. Devo coloc-la no piloto automtico.
	Exatamentc. No tente afast-la da beirada da trilha.
	Oh. no! Sei que elas gostam de seguir  beira do precipcio.
	No sabia que ensinavam esse tipo de coisa nas aulas tericas.

	No ensinam. Judy me contou.
	Dan disse que ela ficou muito nervosa.   
	Bem, eu no fico nervosa com altura c nem tenho medo de mulas. Afinal, por que no usam burros, ou cavalos? Seria mais sensato aproveitar a fora dos burros que encontram, do que adot-los e envi-los para outros locais.
	Os burros so pequenos demais para a maioria dos turistas.
E quanto aos cavalos, so... amorosos demais.
  Amorosos?
	Exatamentc. E estas trilhas so muito estreitas para um garanho excitado ou unia fmea no cio. As mulas so mais calmas, e no h um nico registro de acidente no Canyon envolvendo um desses animais.
	Que boa notcia!

	Se tiver algum problema, basta gritar. Estarei bem atrs de voc  ele avisou.  E trate de usar as luvas de montaria!
	Minhas mos so como meus ps. A prova de bolhas. Depois da primeira centena de bandejas, nunca mais tive de me preocupar com isso.
Apesar do protesto. Andrea retirou as luvas da mochila c colocou-as, obedecendo  ordem superior.
Kurt montou, c ela o acompanhou com os olhos, invadida por uma estranha sensao. No estendera a conversa alm do necessrio, e no lanara sequer um olhar mais quente ou afetuoso cm sua direo.
A caravana partiu cm fila nica, e pouco depois cruzavam a ponte sobre o rio Colorado, rumo  trilha ascendente.
Tranquila, Andrca relaxou sobre a sela c preparou-se para a longa cavalgada. Deviam chegar  margem sul por volta das quatro da tarde, e havia uma parada programada em Tonto Formation, onde almoariam.
O chapu a protegia contra os raios do sol, c Kurt seguia logo atrs dela, atento. Sc esperava que casse, ficaria desapontado. No cavalgava h anos, mas sabia que a tcnica, uma vez aprendida, jamais era esquecida.
Como as mulas seguiam praticamente sozinhas pela trilha, podia aproveitar para apreciar a beleza da paisagem. O Canyon era diferente visto de cima, e suas cores eram de tirar o flego. Mais uma vez, Andrca pensou em como gostaria de levar uma cmera na mochila, equipamento proibido pelo regulamento. Talvez pudesse tirar algumas fotos cm sua prxima folga.
Quando o primeiro cavaleiro indicou que todos deviam parar, ela surpreendeu-se e olhou para Kurt cm busca de alguma explicao.
	Sei que  cedo para o almoo, mas Tonto Formation  nico local onde se pode descansar na trilha ascendente. No h espao para as mulas nas outras paradas  ele disse.
Minutos mais tarde, todos saboreavam o almoo simples cedido pelo estado em caixas trmicas.
	Sabe de uma coisa?  Andrca confessou.  Preferia tirar fotos a perder tempo comendo. Olhe s para essas cores!
	Todos os recrutas dizem isso  Kurt sorriu.  Depois de algum tempo, as cores sero apenas mais uma indicao de formaes geolgicas tpicas.
	O instrutor falou sobre isso nas aulas tericas, mas no consigo lembrar muita coisa.
	No  difcil. O Grand Canyon  formado por nove formaes rochosas, c Tonto Formation exibe trs delas.
	Devia ter anotado todos os nomes.
	No  necessrio. Depois da primeira centena de visitantes curiosos, aposto que vai lembrar todas as formaes sem ter de parar para pensar. Depois de algum tempo, vai saber at a data de cada formao.
	Data? Preciso saber datas?
	Apenas os perodos. Prc-cambriano, devoniano... Enfim, coisas que as crianas aprendem nas primeiras aulas de geografia.
Andrea gemeu:
	Isso ser como decorar o cardpio da aeronave. Os passageiros me obrigavam a recitar todas as opes de bebidas, incluindo preos e marcas, e depois pediam um refrigerante. Vamos ver... Se so nove camadas rochosas, mais cores, datas e tipos especficos de cada rocha... Trinta e seis nomes. No  to ma! assim. O cardpio do avio era maior. Por que no aproveita para recitar os nomes das camadas rochosas, enquanto eu tento decor-las.
	Mais tarde  ele riu.  Aproveite a cavalgada para observar
as diferentes camadas. Muitas delas possuem aparncias distintas e, com um pouco de prtica, ser capaz de perceber onde uma formao termina, e onde comea a prxima. No precisa saber os nomes para identificar as diferenas entre elas.
	Melhor assim!  ela riu.  Obrigada, Kurt.
Sorrindo, ele levantou-se e levou as embalagens do almoo para a lata de lixo mais prxima.
	Pelo menos sei que quer aprender  comentou.  No posso dizer o mesmo da maioria dos recrutas que supervisionei.
	Ningum pode dizer que j sabe tudo.
Triste, pensou em Dee em todo o treinamento que recebera para lidar com emergncias.
	Algum problema?
	No  ela respondeu apressada, livrando-se das recordaes amargas.  Parece que todos j terminaram de comer. Vou voltar para a minha mula.
A caravana retomou a trilha ascendente, e o sol rompeu a camada de nuvens que os protegia do calor excessivo. A princpio, Andrea sentiu-sc feliz com a luz clara e brilhante, mas em pouco tempo sentiu necessidade de ingerir a gua que levava no cantil. As mulas seguiam num passo mais lento, c outros patrulheiros, especialmente os que no haviam levado culos c chapus, ficavam cada vez mais vermelhos c suados.
Em pouco tempo, Andrea tambm comeou a desejar uma sombra. Kaibab era uma trilha area, c no podiam sequer parar para refrescar-se. O caminho era to estreito, que os patrulheiros ambulantes tinham de afastar-se e esperar at que as mulas passassem para, s ento, retomar sua caminhada.
Kurt perguntava se estava bem a cada dez minutos. A princpio, Andrea virava-se para responder, mas agora limitava-se a acenar com a mo num gesto positivo. A noite de sono insuficiente e o calor opressivo estavam comeando a afet-la de verdade, deixando-a sonolenta e distrada. Para manter a concentrao, Andrea voltou a observar as rochas que Kurt mencionara, tentando identificar suas camadas.
Assim, mesmo que no estivesse absolutamente alerta e acordada, ningum perceberia. Especialmente Kurt. Reprimindo um bocejo, virou a cabea para o lado do precipcio e congelou.
Havia algum l embaixo, numa plataforma estreita e perigosa! Podia ver apenas a cabea c, preocupada, virou a cabea para ver em que ponto da trilha estavam. A caravana comeava mais uma curva sinuosa. No poderia identificar aquela pessoa de onde estavam,  as mulas tambm no poderiam voltar atrs.
A deciso foi imediata. Puxou as rdeas mas, habituada a parar somente quando toda a caravana tambm interrompia a marcha, a montaria seguiu em frente. Rpida, Andrea desmontou e jogou-se para o outro lado, temendo prejudicar o progresso da caravana.
	Andrea, que diabos est fazendo?  Kurt gritou, seguindo a mula que, agora, no possua um cavaleiro.
	H algum l embaixo!  ela respondeu.  E acho que est precisando de ajuda.
Enquanto voltava pela trilha, Andrea ouviu a voz de Kurt ordenando a parada da caravana. Quando alcanou o ponto de onde vira a figura solitria, deitou-se no cho, aproximou-se do precipcio e gritou:
Pode me ouvir?
Houve um movimento rpido l embaixo, e depois a imobilidade total.
E agora? Devia ficar onde estava, esperando que Kurt a alcanasse e tomasse a deciso sobre o que fazer?
	Por favor, me ajude! Estou caindo!
A voz masculina c aflita a fez decidir sozinha.
	Kurt, eu vou descer!  gritou.
	No se atreva! Isto  uma ordem, ouviu bem?
Mas Andrea j comeara a descida vertiginosa, o ventre colado  parede rochosa c os ps buscando pontos onde pudessem apoiar-se. Tomando o cuidado de no desprender pedras que cairiam sobre a vtima, continuou descendo at ter certeza de que poderia alcan-lo, e ento virou-se com cautela.
	Fique calmo  disse.  Eu sou Andrea, e estou aqui para ajud-lo. Qual  o seu nome?
	Mike. Por favor, faa alguma coisa. No estou me sentindo bem.
	O que aconteceu?  ela perguntou, movendo a mo para tomar o pulso da vtima, preocupada com sua intensa palidez.
	Eu estava caminhando pela trilha ascendente, mas fiquei tonto e... Acho que foi o calor.
	Voc escorregou c caiu?
Mike afirmou cora a cabea, fraco demais para falar.
	No se preocupe. Voc foi visto pela caravana de patrulheiros, e o socorro est a caminho. Vamos tir-lo daqui cm pouco tempo.
Tentando esconder o medo, Andrea soltou o pulso da vtima e examinou sua pele plida, friae suada. Todos os sintomas de exausto e insolao. S esperava que permanecesse consciente por mais algum tempo!
	Andrea, pode me ouvir? Cmbio.
Segurando o rdio que levava preso  cintura, ela respondeu:
	Estou ouvindo, Kurt. Temos uma vtima aqui embaixo. O nome dele  Mike, deve ter uns vinte anos de idade e...
	Vinte e um.
- Vinte e um, c parece um caso grave de insolao. A posio dele c precria, e temos de tir-lo daqui o mais depressa possvel. Cmbio.
	Seus ps esto bem apoiados? Cmbio.
Sentindo o piso arenoso desfazer-sc sob suas botas, ela respondeu:
	Ns dois estamos praticamente sem apoio. Cmbio.
Houve uma pausa rpida c, erguendo o rosto, cia viu Kurt de bruado sobre o precipcio, examinando a situao.
	Temos algumas cordas, e podemos-iar a vtima com o auxlio das mulas. Cmbio.
Mike gemeu e fechou os olhos.
	 melhor correr, porque ele est desmaiando! Cmbio.
Andrea segurou a mo de Mike e friccionou-a com vigor.
	Por favor, Mike, faa um esforo para manter-se consciente. No vou conseguir segur-lo!
Mike abriu os olhos.
	Assim  melhor. Por que no me diz seu nome e endereo?
Tem algum amigo aqui no parque, algum parente que tenha vindo com voc?
Enquanto estivesse fornecendo informaes, Mike permaneceria alerta.
	As cordas esto descendo  Kurt gritou, desistindo do rdio.
Suas mos estavam ocupadas com o equipamento de salvamente, e sua voz era forte o bastante para prescindir do transmissor.  Fique atenta.
Andrea ergueu a cabea -novamente e viu as cordas descendo junto  parede do precipcio. No tentou alcan-las, porque isso comprometeria seu equilbrio precrio. Esperou que a ponta estivesse bem a seu lado c, s ento, estendeu a mo.
	Pronto, Mike  disse com voz calma.  Vou ajud-lo a colocar esta espcie de colete, e depois meus colegas o puxaro.
No temos pressa, certo? Vamos l, com calma.
Mais plido que nunca, Mike afirmou com a cabea.
	No olhe para baixo. Preste ateno cm mini, e no colete que vai vestir  ela indicou, movendo-se devagar c com firmeza, at terminar de prend-lo.  Pronto! No foi to ruim, foi? Agora relaxe, c deixe que os outros patrulheiros o puxem devagar. Vire-se de frente para a parede e mantenha os braos estendidos. Assim, poder evitar choques dolorosos.
	Obrigado.
Andrca sorriu, apanhou o rdio e avisou:
	Ele est pronto  c, olhando novamente para a vtima, desejou:
 Boa sorte, Mike. Nos vemos l cm cima.
As mulas moveram-sc para a frente e, lentamente, Mike comeou a subir. Aliviada, Andrca moveu-se para o ponto que ele ocupara at ento, preocupada com a falta de segurana do terreno sob seus ps. O alvio desapareceu quando o terreno desmanchou-se em pedregulhos.
Esta rea era to instvel quanto a outra! Nervosa, olhou em volta e decidiu que o melhor a fazer seria descer mais um pouco. Havia um patamar rochoso abaixo de onde estava,  direita, e l estaria mais segura. O terreno desmanchou-se novamente sob seus ps c, mordendo o lbio, ela comeou a mover-se.
Cautelosa, seguiu lentamente para a direita, as mos agarradas  vegetao mais firme, c conseguiu chegar ao patamar no momento em que Mike chegava ao topo, so e salvo.
Feliz, Andrea ergueu a cabea para acompanhar os ltimos instantes do salvamento, e havia acabado de agarrar-se a uma raiz que brotava da parede rochosa, quando o patamar onde ambos haviam ficado desabou.
As rochas rolaram pelo abismo do Canyon, e Andrea colou o corpo  parede e fechou os olhos, lutando contra o medo. Algumas pedras menores a atingiam nos ombros, e uma mais pesada arrancou seu chapu. Num gesto automtico, ela levou um dos braos  cabea e, momentos depois, a pequena avalanche havia passado, seguindo seu caminho cm direo ao rio Colorado.
Andrea tossiu, passou a mo pelo rosto empoeirado e respirou fundo. Se no houvesse sado da pequena plataforma naquele exato instante, tambm teria cado. Lutando para manter a calma e conter o tremor, virou-se devagar e colou as costas  parede rochosa, obrigando-se a respirar profundamente.
Precisou de alguns segundos para perceber que algum gritava seu nome pelo rdio e, piscando para livrar-se da poeira nos olhos,
notou a agonia nos gritos dos integrantes da caravana, alguns metros acima.
	Andrca! Andrca! Voc est a? Quem era?
	Andrea, sou eu! Kurt! Pode me ouvir? Vamos, querida, responda!
Piscando mais algumas vezes, apanhou o rdio na cintura e respondeu:
	Claybournc falando. Cmbio.
	Andrca...  ele repetiu aliviado.  Est ferida?
Ferida? Provavelmente no. A menos que considerasse as pedradas nos ombros... Compreendendo subitamente o motivo de tanta preocupao, ela explicou:
	Kurt, eu desci para outro patamar antes do desabamento.
	Voc desceu?  ele repetiu incrdulo.
	O piso estava se desmanchando sob meus ps, e no tive outra alternativa. Perdi meu chapu, mas estou bem.
	Tem certeza?
	Tenho. Ou melhor, acho que sim. Pode me tirar daqui?
	Onde voc est?
	Olhe para a direita da plataforma onde resgatamos Mike, cerca de cinco metros abaixo. H um grande arbusto sobre minha cabea.
	Que tipo de arbusto?
	Como posso saber? Hoje voc s falou sobre geologia! Esqueceu a aula de botnica  ela irritou-se.
Quase morrera, e ele s sabia preocupar-se com o nome das plantas!
	Se no poder descrever o local onde est, no conseguiremos jogar a corda no ponto exato. Precisa estudar mais botnica e rever as regras de comunicao pelo rdio. Descreva sua localizao. Cmbio.
	Sabia que ia encontrar algum motivo para me criticar  ela reclamou, antes de empenhar-se na descrio exata de sua localiza  o.  Estou sobre um patamar rochosa cercado por arbustos que parecem algarobos. E no sei que tipo de rocha  esta, nem em que perodo se formou! Cmbio!
	J posso v-la. Fique atenta, est bem? Vou jogar a corda junto da manzanita. Este c o nome exato do arbusto. Cmbio.
	Manzanita? Ah, Kurt, pare com isso e jogue a corda de uma vez! Cmbio!
	Acha que poder alcan-la? Cmbio.
	Eu no tenho escolha. Prenderei o colete, c acenarei quando estiver pronta. Cmbio final.
Minutos depois, os aplausos a receberam no alto do penhasco, de volta  trilha.
	Como est Mike?  foi a primeira coisa que ela perguntou ao retirar o colete.
	J foi enviado para o posto mais prximo em uma das mulas.
E  exatamente para onde voc vai. Monte.
	Eu estou bem  Andrea protestou, removendo a poeira das roupas com o auxlio das mos.  Prefiro voltar ao trabalho.
	De jeito nenhum!  Kurt exclamou.  No vai voltar ao trabalho.
	Por que no?
- Porque, srta. Claybourne, voc est demitida!

CAPITULO VI

Quero essa mulher fora do parque hoje, Jim, e estou falando serio!
- Ela encontrou uma vtima que voc no viu, Kurt  Jim respondeu com calma, sentindo pena da palidez de Andrea.  O que esperava que ela fizesse?
	Esperava que comunicasse o fato, no que saltasse da mula como o Zorro!
	No havia tempo para isso  Andrea justificou-se.
	Voc violou todas as regras de segurana!
	Ele precisava de ajuda. Mike quase desmaiou!
	Se houvesse desmaiado, como poderia t-lo segurando se no tinha sequer uma corda? Voc arriscou sua vida, Andrea!
	Eu o impedi de desmaiar. Minha presena o manteve alerta!
Jim, juro que no me expus ao perigo.
	Isso  o que voc diz  Kurt insistiu.
	No pode me demitir! Eu realizei um salvamento!
	J chega  Jim irritou-se.  Kurt, o parque inteiro est ou vindo seus gritos. Andrea, sente-se, ou vai acabar desmaiando  e esperou que ela obedecesse para prosseguir.  Voc viu uma vtima que ningum havia notado, Andrea. Tomou a deciso de resgat-la,
e felizmente a operao foi bem sucedida. Em vista dos fatos, acho que devemos encerrar este assunto imediatamente.
	Obrigada.
E quanto a voc, Kurt, no acha que est sendo excessivamente protetor?
Protetor? O que sugere que eu faa quando um recruta salta da mula c se atira por um precipcio? Andrca no tem um pingo de bom senso!
	Eu acho que tem medo de confiar nela... ou cm qualquer outro recruta. Sei o quanto foi difcil quando Sarah morreu.
	Isso no tem nada a ver com Sarah!
	No?
	No! Quando Sarah ainda era uma recruta, seguia minhas ordens  risca, e no agia como Andrea Claybournc. No quero mais ser responsvel pela segurana dessa maluca!
	Andrea... por que no tira o resto do dia de folga?
	Mas...
- V tomar um banho e descansar, enquanto Kurt e eu discutimos algumas coisas. Nos vemos amanh, s oito em ponto. Parabns pelo trabalho de hoje.
Andrea dirigiurse ao alojamento com o corao pesado. Salvara uma vida humana, e ainda havia sido censurada!
Um banho quente a faria sentir-se melhor. E uma aspirina tambm seria unia boa ajuda. A cabea estava doendo, depois da tenso do dia, e a rcao de Kurt Marlowe s piorara seu estado geral.
Meia hora mais tarde, apesar de limpa, no conseguia sentir-se melhor. Apesar da aspirina, a cabea ainda doa, o corpo reclamava do esforo, e o ombro esquerdo estava tingindo-se rapidamente de roxo, sinal de que a pedrada fora mais forte do que imaginara.
Sentada sobre a cama, decidiu descansar um pouco c tentar relaxar. Mais tarde, iria ao vilarejo cm busca de um novo chapu, e talvez aproveitasse para comer cm um dos restaurantes simples e aconchegantes. Qualquer coisa, desde que pudesse tirar Kurt da cabea.
No queria perder o parceiro, e isso a surpreendia. Aprendera a admirar sua personalidade forte, a maneira clara como expressava-suas opinies e a firmeza com que colocava-se diante da vida. Era to diferente dos homens que conhecera, que cada dia tornava-se mais difcil resistir  atrao.
Andrea suspirou. Sentia-se enjoada, e a cabea doa cada vez mais. Talvez, se conseguisse dormir um pouco...
As batidas na porta a fizeram mudar de planos.
Entre.
A porta abriu-se, e KUrt surgiu diante de seus olhos Que surpresa!  ela exclamou com sarcasmo.  No esperava rever meu parceiro. Ou seria cx-pareciro?
	Jm me pediu que viesse at aqui  ele disse, fechando a porta s suas costas.  Preferiu deixar a deciso por nossa conta e... O que  isso no seu ombro?
	Nada.
	Nada?  um hematoma imenso!
	Pedradas costumam ter esse tipo de efeito.
	J tomou uma aspirina?
	Sim, mas foi intil. E fsso significa que no estou com a menor disposio para conversar.
	Mas no tem escolha, mocinha. Jim est esperando por nossa deciso  e sentou-se na cama, ao lado dela.
	Se j suportei metade do meu treinamento com voc, acho que sou capaz de enfrentar os trinta dias restantes com quem quer que seja. No  isso que quer?
	Quero saber o que voc quer, Andrea!
	Acabei de dizer. Quero um novo parceiro. Por que tenho de continuar trabalhando com algum que no confia em mim? Para voc, jamais .deixarei de ser uma aeromoa estpida que no sabe distinguir um arbusto de outro.
	Eu confio cm voc. Andrea. Mas isso no significa que no posso me preocupar. Se aquela pedra tivesse atingido sua cabea, em vez do ombro, agora eu estaria enviando um telegrama a seus pais comunicando a data do funeral.
	E se eu no houvesse feito o que fiz, estaramos mandando o mesmo telegrama para os pais de Mikc!
	Eu sei.
	Est... admitindo mais um erro?
	Devia ter elogiado sua atuao, c no exigido sua demisso.
Estou sendo exageradamente protetor. Prometo que no voltar a acontecer. Se concordar com minha proposta... gostaria de terminar o seu treinamento.
Era s o que desejava ouvir! E no entanto, a vitria a deixava ainda mais inquieta. Lembrou-se do corpo dele colado ao seu, dos lbios quentes e macios, c compreendeu que a atrao crescente prejudicava sua concentrao no trabalho.
Respirando fundo, criou coragem e tomou uma deciso:
	Acho que esta no  uma boa ideia. Prefiro que fale com Jim c pea a ele que dissolva nossa parceria.
	Pensei que no estivesse disposta a desistir. Estava enganado?
	Eu...  De repente, teve certeza do que realmente queria.
Kurt Marlowe devia tomar conscincia dela como mulher, e no s como uma recruta. Mas, se arruinasse seu treinamento em funo de uma simples atrao fsica, s tornaria tudo ainda pior.
	Ainda pode mudar de ideia  ele insistiu.  Jim disse que, se no recebesse notcias nossas at amanh, manteria nossa parceria. 
Se quer um novo supervisor, v voc conversar com ele  e levantou-se.
Andrea o viu partir c, deprimida, apanhou o telefone. Relutante, discou o nmero do ramal do escritrio de Jim c esperou, at que ele mesmo atendeu.
	Estava esperando sua chamada, Andrea. O que decidiu?
	Eu... estou confusa  confessou.  Por que no me disseram que Sarah era esposa de Kurt?
	Costumo manter a vida afetiva de meus funcionrios bem longe do aspecto profissional.
	Mas a vida pessoal de Kurt afeta diretamente minha condio profissional. Sarah morreu h dois anos, o inqurito foi encerrado, e ele ainda age como se houvesse algo a esconder. Desaparece misteriosamente nos finais de semana e... Droga, ningum me diz nada!
H alguma coisa que eu precise saber?

	No. E esta conversa  perda de tempo, Andrea. A menos que pea o contrrio imediatamente, sua parceria com Kurt ser mantida.
	Mas...
	At logo, Andrea.
Jim desligou, deixando-a com mais perguntas do que respostas. Devia telefonar novamente e solicitar um novo instrutor, mas no tinha coragem. Mais tarde...
Adiou a deciso por tanto tempo, que acabou mergulhando num sono pesado c profundo. S acordou algumas horas mais tarde, com as batidas na porta.
Sonolenta, Icvantou-sc e foi abrir.
Era um mensageiro.
	Srta: Andrea Claybournc?
	Sim, sou eu.
	Encomenda. Assine aqui, por favor.
	Obrigada  ela agradeceu antes de fechar a porta, levando o pacote para junto da cama.
Ao abri-lo, surpreendeu-se ao encontrar um novo chapu, exata-nicnte como o que havia perdido.
Na semana seguinte, Andrea manteve-se atenta a seu papel de recruta, impedindo que Kurt tentasse uma nova aproximao. Devia ter comprado o chapu, porque o estado s fornecia um conjunto por ano. e no aceitaria novas concesses.
O treinamento duro a mantinha ocupada durante todo o dia c.  noite, quando caa na cama, estava to cansada que adormecia cm seguida, sempre depois de parabenizar-sc por ter sobrevivido a mais uni dia sem atirar-se nos braos de Kurt Marlowe.
Quando o perodo de experincia terminasse, talvez pudessem ser amigos, ou mais que isso. Sarah havia morrido h dois anos, e talvez ele estivesse preparado para receber algum cm sua vida. Por que no ela? No entanto, enquanto no conclusse o treinamento, no arriscaria seu emprego tentando conquistar o supervisor.
A menos que ele demonstrasse algum interesse... Infelizmente, o nico sinal de interesse veiode outro supervisor. Dan.
	Vamos. Andrea, podemos nos divertir muito  ele insistiu, depois de vrias negativas.  Saia comigo!
	J disse que no estou interessada, obrigada.
	Sc acha que vai conseguir sair com Kurt Marlowe, est perdendo seu tempo  ele irritou-se.  J vi como olha para ele. Pois saiba que ningum  boa demais para a filha dele. nem mesmo unia...
	Filha? Kurt tem uma filha?
No venha me procurar quando estiver cansada de esperar, porque o mar est cheio de peixes.
Apesar da curiosidade sobre a filha de Kurt. Andrca recusou-se a repetir a pergunta que fizera.
A revelao a perturbara mais do que gostaria de admitir, pois agora era como se suas chances houvessem sido reduzidas a nada. Se j era difcil competir com Sarah, uma criana seria ainda pior. Por isso no o via nos finais de semana.
No fim da semana, todos os recrutas sentiam-se aliviados com o final do treinamento, embora ainda tivessem de enfrentar a pior parte. O exame prtico.
Estavam realizando uma das provas mais difceis, descer o penhasco sobre o rio, quando Andrea aproveitou uma das pausas para prender algumas mechas de cabelos que escapavam do elstico.
	Andrca!  Kurt censurou-a.  Estamos vrios quilmetros acima do rio. Se soltar as mos, a queda poder ser fatal.
	No vou cair  ela respondeu, segurando novamente a corda.
H um <feropo\vito para tudo, e ajeitar os cabelos est definitivamente fora de questo neste momento. Sei que no c nenhuma estpida. As vezes chego a pensar que faz de propsito, s para me
aborrecer.
A resposta de Andrea foi um silncio cheio de culpa. Estava realmente dificultando as coisas, mas s para manter uma distncia segura entre eles. Aborrece-lo era a melhor maneira de impedir a proximidade que s alimentaria seus sentimentos.
	Perdeu uma oportunidade de mudar de supervisor, Andrea.
Agora, a nica coisa que posso fazer  sugerir uma melhora rpida em seu comportamento.
Quando voltaram a descer pelo abismo, a rapidez de Andrea demonstrava toda a preocupao que passara a ter com segurana e eficincia. Kurt chegou primeiro, e esperou ate que ela pusesse os ps no piso do Canyon.
	Parabns. Voc foi aprovada nesta fase do exame. Pegue seu equipamento. Vamos voltar ao topo cavalgando as mulas.
	E depois?
Depois iremos preparar tudo para amanh, quando comearemos unia nova fase do treinamento. A descida do Colorado.
	Vamos caminhar por trilhas novas?
	No. Vamos descer o rio num bote. Amanh cedo, iremos ate Les Ferry de avio, c de l partiremos pelo rio. Se o tempo estiver bom, podemos seguir at Pearcc Fcrry.
Lcs Fcrry ficava na fronteira entre o Arizona e Utah, e Pearce Ferry localizava-se perto de Nevada, no extremo do parque.
	Est dizendo que vamos atravessar toda a extenso do Canyon num bote?
	Isso mesmo. Algum problema?
	No. Acho que fiquei um pouco nervosa  confessou, sem explicar que a inquietao no era provocada pelo medo, mas pela possibilidade de passar tanto tempo sozinha com ele.  Algum ir conosco?
	No.
	Quer dizer...
	Exatamente, srta. Marlowc. Seremos s nos dois.
	Voc est bem?
Andrea assustou-se com a voz de Kurt.
	Sim, estou. Por qu?
	O avio ainda nem dccolou, e voc j est agarrando a beirada da poltrona.
	Bobagem!  ela irritou-sc, cruzando os brao sobre o peito.
 Estou muito bem.
Respirando fundo, lembrou-se do psiclogo da empresa area e tentou aclmar-sc. Daria dez anos de vida para estar em qualquer outro lugar! A decolagem era a pior parte. Fora exatamente numa decolagem que aquele avio havia desabado como uma pedra! Fechando os olhos, tentou afastar a lembrana da aeronave dividida ao meio. E se aquele jumbo, partira-se ao meio, este pequeno avio...
Estavam no aeroporto Grand Canyon, esperando pela autorizao de partida.
Andrea, voc parece aflita. Se est sentindo alguma coisa, podemos descer c deixar a viagem para mais tarde, no ltimo vo.
	No. obrigada. Est cansado de saber que Jim quer me escalar para a equipe dos helicpteros. Por favor, no crie problemas.
Felizmente, a decolagem de uni helicptero era absolutamente diferente.
	Eu no faria isso  Kurt respondeu com tom calmo.
	Eu sei que no. Desculpe, est bem? Acho que estou cansada.
Minutos depois, a aeronave entrou em movimento e Andrea sentiu o pnico crescer. Respirou fundo, mas foi intil. Agarrou-se  poltrona, tentando manter os olhos abertos, e de repente sentiu que Kurt segurava sua mo. Incapaz de conter-sc, agarrou os dedos dele como se fossem sua nica salvao, c finalmente sentiu que haviam
sado do cho.
Agora podia respirar aliviada.
Esperando pelo inevitvel, virou-se para Kurt e disparou:
	V em frente. Diga o que est pensando.
	Dizer o qu?
	Para uma cx-comissria de bordo, meu controle emocional  precrio.
Embaraada, tentou afastar a mo da dele, mas Kurt a segurou com mais fora.
	Tenho certeza de que estava acostumada com avies muito maiores. Estas coisas minsculas mexem com os nervos de qualquer um.
	 a primeira vez que vo numa coisa to pequena.
	Ento, est explicado. Tambm fiquei tenso quando sentei nesta poltrona pela primeira vez.
	E mesmo?
	 claro que sim. Mas acabei me habituando, e voc tambm vai se acostumar. Sente-se melhor?
	Sim, obrigada  sorriu com gratido. Kurt no sabia o quanto ficava perturbada durante uma decolagem, e no podia imaginar  como a ajudara com suas palavras.  Na verdade, estou to bem que me lembrei de algo importante. Quanto pagou por aquele chapu?
Gostaria de reembols-lo.
- Esquea.
	Kurt, eu sei que o estado no substitui material e uniformes perdidos antes da data estipulada para a troca.
	 verdade. Mas o preo do chapu foi pequeno, comparado ao inconveniente de ter de lev-la ao centro comercial c esperar at que fizesse suas compras.
	Por favor, Kurt  ela riu.  Eu quero pagar pelo chapu.
	Depois. Agora trate de relaxar c descansar um pouco. Teremos uma semana difcil pela frente, c quero que esteja preparada. Quer trocar de lugar? Prefere ficar longe da janela?
	No, obrigada. Acho que nunca vou me cansar de apreciar a beleza do Canyon.
	O cenrio c realmente fantstico. Pena que o vo seja curto.
	Terei outras oportunidades de voar sobre o Canyon quando for submetida ao treinamento com os helicpteros.
	No sabe como vai gostar desta parte da experincia  ele suspirou.  Todos ficam encantados.
	Posso imaginar. Mas... e voc? Acha que vai ficar bem?
	Eu?
	Nossa prxima etapa o far lembrar Sarah. O rio, o bote...
	Eu nunca quis passar pelo local onde Sarah morreu. Naquele dia, estava na equipe dos helicpteros, e tive de resgat-la. A primavera havia derretido toda a neve do inverno, e a correnteza era mais forte que todas as que j vi. Todos dizem que s a encontramos por um milagre...
	No acredita em milagres?
	No acredito que tenha existido uma razo para uma morte to estpida! Sarah no devia ter morrido!
	Kurt. eu sinto muito, mas ainda no consigo entender.
	Eu mesmo a treinei, Andrea. Ela era melhor do que todos os recrutas que j tive. A morte de Sarah no foi um acidente.
	No foi?  ela espantou-sc, sentindo que ele estava prestes a fazer uma revelao importante.
	No. Algo aconteceu naquele resgate, e no foi culpa dela.
jarah era competente, o equipamento era moderno...
	Est dizendo que ela morreu por causa de um erro... de outra pessoa? Algum membro da equipe?
Estou dizendo que Sarah morreu, c no devia ter morrido.
KUrt, acho que no devia culpar os outros. No  justo, e nem... saudvel.
	Voc pensa que estou apenas tentando encontrar uma maneira de amenizar minha dor, no ?	
	No, mas... Bem, se houvesse algo de estranho, o inqurito teria apontado. Suspeitou de alguma coisa na poca do acidente?

	No sabia o que pensar. Os outros patrulheiros envolvidos naquele resgate mal falavam sobre o episdio, e o parceiro dela pediu para ser transferido para o extremo oposto do Canyon.
	Talvez tenha ficado abalado, como voc.
	Talvez.
	Por que essa obsesso pela morte de Sarah agora, dois anos depois?
	Por voc.
	Por rriim?
	No queria que fosse admitida, justamente por causa daquele acidente. Pense bem. Andrea. Qualquer local de trabalho tem suas fofocas, c no entanto... Aqui, todos se recusam a comentar o acontecido. Voc mesma disse que nem sabia que Sarah era minha esposa.
Ou que tinha uma filha.
	Talvez queiram poup-lo.
	Depois de dois anos? No acha um tanto suspeito?
	As pessoas costumam evitar os assuntos que as entristecem. Esconder a verdade no  o bastante para evitar a dor. No vou descansar enquanto no descobrir o que realmente aconteceu, Andrea.
Em silencio, imaginou todo o sofrimento que o dilacerava. A morte de Dee havia sido trgica, mas pelo menos no tivera de torturar-se com dvidas como as que ele alimentava. Sabia que havia sido inevitvel. Quanto a Sarah...
E se ele estivesse certo? De qualquer maneira, agora compreendia por que preocupava-sc tanto com ela. Uma mulher bem treinada, com experincia anterior e equipamento moderno, havia morrido em servio. Que tipo de chance Andrea Claybourne teria de ser bem sucedida?
Era estranho, mas sabia que tudo daria certo. Estava preocupada com Kurt, e no com a prpria segurana. Sabia como o passado podia voltar com fora suficiente para ferir, c no queria que Kurt sofresse. Por isso, disse a si mesma que descobrira toda a verdade sobre a morte de Sarah.
A paz de esprito de Kurt dependia disso, c a dele tambm.

CAPITULO VII

Por que no vai mudar de roupa, enquanto eu cuido do bote?  Kurt sugeriu. Estavam perto do Lago Powccl, c o rio Colorado estendia-se diante deles.
Enquanto ele inflava o bote com a bomba porttil, Andrea retirou o uniforme c ficou apenas com o maio vermelho da patrulha. Em seguida guardou as roupas numa mochila a prova de gua e calou as sapatilhas.
	No vamos usar um motor?  perguntou curiosa.
	No. Barcos motorizados so para guas mais profundas, e precisam de pelo menos quinze pessoas para manter-se estveis. Este bote c mais que suficiente para ns dois e o equipamento. S precisamos usar os remos para manter a direo, c a correnteza nos levar rio abaixo. Sabe remar?
	Sei, mas estou sem prtica.
	Ento, v com calma, ou vai acabar com os ombros doloridos.
	No se preocupe comigo.
	Estou comeando a compreender por que Jim a contratou.
Voc nunca recusa um desafio!
E Kurt era o maior de todos que j enfrentara. Estavam terminando de colocar os coletes salva-vidas, quando um patrulheiro aproximou-se.
	Algum problema, Earl?  Kurt perguntou intrigado.
	No. Meu recruta tambm far a prova do rio hoje c, como vnhamos para c. tomei a liberdade de trazer a correspondncia.
- Obrigada  Andrea surpreendeu-se, apanhando os envelopes que ele lhe entregava. Seus pais e amigos eram correspondentes fieis, c suas cartas sempre traziam muito nimo c alegria.  Acho que no nos conhecemos, no c? Sou Andrea Claybourne  ela estendeu a mo.
	Earl Delmonl  o patrulheiro apresentou-sc. antes de virar-se para Kurt.  Tambm trouxe cartas para voc.
	Muito obrigado. Earl.
	Por nada. Como vai indo. Kurt?
	Bem, obrigado.
	Que bom. Foi um prazer conhec-la, Andrea, mas tenho de ir. Boa sorte.
	Para voc tambm, e obrigada.pela correspondncia  ela respondeu. Assim que Earl afastou-se, comentou:  Foi muito gentileza trazer nossa correspondncia.

	Earl no veio nos procurar por gentileza, mas por causa daquele bendito instinto maternal.
	O que?
	Ele fazia parte da equipe que supervisionava Sarah e seu parceiro naquele resgate. Nos ltimos dois anos, Earl vive perguntando como estou, e tambm insiste cm dizer que a morte de minha esposa foi um acidente. Na minha opinio, esta palavra abrange uma infinidade de significados.
	Acha que ele est mentindo?
	Mentindo... No. Escondendo alguma coisa.
	E como consegue ser to controlado diante de algum que o engana?
Kurt encolheu os ombros:
	Earl  um bom homem, e a raiva nunca foi uma boa conselheira.
Mais cedo ou mais tarde, acabarei descobrindo o que realmente aconteceu.
	Tem discutido o assunto com Jim?
	Sim, c tambm andei revendo os relatrios redigidos pelos outros trs patrulheiros. Nada de novo. Jim afirma que est satisfeito com as concluses do inqurito, c que acredita na hiptese de morte acidental.
	Mas voc no acredita.
 No.
Menos de cinco minutos depois, estavam comeando a descer o rio. As paredes do Canyon erguiam-se sobre eles com a majestade da natureza, c suas fornias c cores variadas isolavam o rio e seus ocupantes do resto do mundo. Andrca gostou da sensao de tranquilidade. O som da gua corrente c o balano do barco tinham um efeito relaxante. c a beleza da paisagem era simplesmente inebriante.
Kurt devia estar sentindo a mesma coisa, pois s voltou a falar depois de algum tempo.
	No devia ter aborrecido voc com meus problemas.
Andrca interrompeu o movimento que fazia com o remo para responder:
	No estou aborrecida. Apenas... preocupada.
	Comigo? Por que?

	Porque julga muito importante provar que todos esto errados.
Dois anos se passaram, Kurt. No acha que seria mais fcil deixar tudo como est c seguir cm frente?
	Talvez, mas no posso.
	Deve sentir a falta de Sarah...
	Realmente. Ela era teimosa, temperamental c adorava discutir sobre tudo. como eu. Era uma parte muito importante de minha vida. c felizmente decidimos ter um filho antes de sua morte.
	Ento tem um filho?  ela perguntou, fingindo no conhecer a resposta.

	Uma filha. Lynn tem cinco anos, c  um amor de criana. No sabia?
	Ouvi alguma coisa a respeito, mas no sabia se a fonte merecia credibilidade.
	E por que no me perguntou nada?
	No queria ser indelicada, ou intrometida. Lynn  um lindo nome  e forou um sorriso.  Onde ela est?
	Em Phocnix, com meus pais. Costumo ir v-la todos os finais de semana. Pensei cm traz-la para Flagstaff, onde morvamos antes, mas cia est feliz com meus pais.
	Por isso pensou em aceitar a proposta de emprego no grupo de proteo ambiental, cm Phocnix? Por causa de Lynn?
Kurt afirmou com a cabea: - Meus pais foram uma grande ajuda. Com esse emprego, eu jamais teria conseguido cuidar de uma criana de trs anos de idade. Mas Lynn deixou de ser um beb, meus pais esto ficando velhos, e eu sinto que preciso participar da vida dela mais ativamente. Ela vai para a escola cm setembro. Sc eu aceitar o cargo no grupo de proteo, talvez possa at dar um jeito de fazer meus horrios coincidirem com os dela.
	Acha que vai acostumar-se com o trabalho burocrtico?  ela perguntou com tom triste, pensando cm como seria terrvel v-lo partir para to longe.
	Desistir desse trabalho c o preo que terei de pagar. Meus pais precisam descansar, c eu sinto falta de minha filha. No pretendia passar tanto tempo longe dela, mas queria descobrir a verdade sobre o acidente antes de desistir.
O bote comeou a deslizar para a lateral, empurrado pela correnteza fraca, c Andrca corrigiu o curso com os remos.
	Talvez no descubra nunca  ela respondeu.  Estamos a apenas trs meses de setembro.
	Preciso descobrir, Andrca! Sarah era jovem, estava cheia de planos para ns e nossa filha, e perder tudo de maneira to estpida foi... Eu devo isso a Sarah. Vou descobrir quem foi o responsvel,  custe o que custar.
	E se no houver um responsvel, Kurt?
	Algum deve ter errado, c sei que no foi Sarah. E mais, sei que o responsvel no pode continuar integrando a equipe do parque. 
	Quero que seja demitido, c depois direi a minha filha que a mo dela no era a vtima descuidada e indefesa que todos dizem.  o mnimo que posso fazer por Sarah. Salvar sua reputao.
	E isso c importante para voc?
	Para mim, para Lynn, e sei que tambm seria muito importante Para Sarah. Ela tinha muito orgulho do trabalho que fazia.
	Kurt, isso tudo aconteceu h muito tempo! Talvez no consiga saber a verdade nunca!
	E verdade. Tudo aconteceu h muito tempo, c todos ainda ficam muito abalados sempre que o nome dela  mencionado. A morte de Sarah no foi um acidente! Pelo menos, no um acidente Provocado por cia.
Enquanto estiver obcecado por essa ideia, no ser capaz de deix-la descansar em paz c cuidar de sua vida.
Kurt voltou a mover os rumos com vigor, c Andrca decidiu que o melhor a fazer era imit-lo. Gostaria de talar sobre Dee. sobre como havia sido difcil retomar a prpria vida, apesar da ausncia da amiga, e como fora muito fcil conviver com a dor c a saudade, depois de conformar-se com a morte. Mas Kurt no estava disposto a prosseguir com a conversa, e ela decidiu deixar a tentativa para mais tarde.
No momento, tinha de lidar com as prprias emoes. No podia ignorar o desespero que a invadira quando Kurt havia revelado sua inteno de partir no outono. A intensidade dos sentimentos fora uma revelao, c agora sabia que Kurt trouxera para sua vida um brilho novo. do qual sempre sentira falta, apesar de jamais ter conhecido.
E no entanto, por mais que o admirasse cm todos os sentidos, no podia competir com um fantasma. Por isso, mais uma vez, jurou a si mesma que o ajudaria a desvendar a verdade sobre a morte de Sarah. S assim Kurt estaria livre para notar outro algum, e s assim ela poderia ter alguma esperana de conquist-lo.
O sol tornou-se mais quente e a correnteza, mais forte. Por volta do meio-dia, Andrca sentia dores nos ombros de tanto remar, e foi um alvio ouvi-lo dizer que dariam o dia por encerrado, assim que ele encontrasse um bom local para acampamento.
	At os barcos mercantes navegam somente durante metade do dia. No Canyon, o dia transforma-se cm noite rapidamente, mesmo no vero, c ningum quer ser flagrado pela noite no Colorado. Alm do mais. seus braos devem estar doendo.
	Pode apostar  Andrca sorriu.  Passar a manh inteira sentada neste bote me deixou toda dolorida.
	Vamos montar o acampamento, comer, c depois poder caminhar um pouco. Existem runas indgenas e trilhas encantadoras nesta regio do rio, e posso lev-la para conhec-las.
	Oh, eu adoraria!  Andrca entusiasmou-se.  Desta vez, trouxe at minha cmera. Quero tirar algumas fotos da vida selvagem no Canyon. Falando em vida selvagem, o que aconteceu com aquele burro que encontramos na trilha?
	As ltimas notcias eram de que recuperava-se depressa, considerando suas condies.
	Ento ainda est vivo? No foi sacrificado?
	Eu disse que havia conversado com o piloto, e que ele falaria com o veterinrio. O filhote ser adotado assim que estiver totalmente recuperado.
	Oh, Kurt, no sabe como isso me deixa feliz! Obrigada.
	Por que? O filhote era saudvel, e eu no tive nada a ver com essa histria. E se ainda quer esticar as pernas numa boa caminhada,  melhor comearmos a fazer esse almoo de uma vez.
Haviam acabado de comer, quando nuvens escuras c pesadas surgiram no cu, encobrindo o sol rapidamente. Rpidos, conseguiram guardar a comida e erguer as tendas a tempo de protegerem-se da chuva, que caiu com violncia espantosa. Desapontada, Andrca sentou-se no saco de dormir e ficou olhando a tempestade.
	Posso entrar?  Kurt perguntou pela abertura.
	E claro! Entre depressa, ou vai ficar ensopado!
Haviam trocado os trajes de banho por shorts c camisetas.
	Voc esqueceu isto aqui no varal. Ainda esto molhados, mas acho que secaro mais depressa aqui dentro  ele disse, mostrando o maio e a toalha que recolhera.
	Obrigada. Espere!  chamou, ao ver que ele pretendia sair.
 Eu guardei sua correspondncia, lembra-sc?  c abriu a mochila  prova de gua, onde deixara as cartas e a cmera fotogrfica.
	Meus pais no tem o hbito de escrever muito, mas Lynn me surpreende de vez cm quando. Ela ganhou um jogo de carimbos com as letras do alfabeto, c mame a ajuda a formar as palavras. E j que no podemos ir a lugar algum, uma carta de minha garotinha seria simplesmente maravilhoso!  riu, sentando-se no cho e cruzando as pernas.
	Por que no toma uma xcara de caf, enquanto eu separo sua correspondncia da minha?  ela sugeriu, apontando para a garrafa trmica no canto da barraca.  Esqueci o maio no varal, mas jamais deixaria de salvar o caf. Tenho minhas prioridades  riu.
Kurt tambm riu. c serviu-se de uma xcara de caf quente c forte.
	Aqui est  ela disse, mostrando os envelopes.  Contas, anncios, seguro do carro... Ei, estou com sorte! Uma carta dos meus pais e...  e parou, os olhos fixos no nome do remetente do envelope seguinte. Emily.
	O que foi? Mais contas?  Kurt perguntou, notando sua expresso confusa.
	Oh. no...  uma carta de uma garotinha que conheci em Denver. Recebi notcias dela h uma semana, c fiquei surpresa por estar escrevendo novamente to cedo.
Ansiosa. Andrca abriu o envelope e estranhou a ausncia do desenho colorido que sempre acompanhava suas mensagens. Em seu lugar, havia uma mensagem breve, cuja letra firme indicava ter sido escrita por um adulto.
Andrca decidiu l-la primeiro.
Cara srta. Claybournc, Minha esposa e eu vamos levar Emily para visitar os avs e conhecer o Grand Canyon. Estamos ansiosos para rccncontr-la c agradecer mais uma vez por tudo o que fez por nossa menina. Emily no estaria viva. no fosse seu esforo.
A carta prosseguia, fornecendo dados sobre a viagem e a data de chegada, o nmero do telefone do hotel c uma solicitao para que entrasse cm contato o mais depressa possvel. Andrea notou que a famlia chegaria ao Canyon quando ela estivesse na metade de sua viagem de bote pelo Colorado. Telefonaria para cies de Phantom Ranch. S chegariam na parada dentro de trs dias, mas felizmente o grupo pretendia permanecer no Canyon por uma semana.
Em seguida. Andrca leu a carta de Emily.
Queria Andrea:
Estou to feliz! Finalmente poderei ver meus avs e voc! Est gostando do seu novo emprego? Mais do que do antigo? Acha que poderemos tirar uma foto juntas? Papai prometeu me emprestar a emera nova. Nos vemos cm breve.
Com amor, Emily.
P.S.: O medico disse que minha perna est tinia!
Andrea sorriu. Seria maravilhoso rever Emily! Conhecera seus pais no hospital e havia visto fotos de seus avs, e agora era como se fosse um membro honorrio da famlia.
	Boas notcias?  Kurt perguntou.
	Otimas  ela sorriu.  Algumas pessoas de Denver iro me visitar no parque. Ser maravilhoso rever rostos familiares.
	Por acaso h algum homem solteiro no meio desse grupo?
	Como?
	No precisa responder. No  da minha conta.
Rindo, incapaz de conter a euforia diante da inesperada demonstrao de interesse, ela comentou:
	 uma pergunta bastante delicada, no acha? Devia ter comeado de maneira mais sutil. perguntando sobre meu prato preferido, onde eu estudei, coisas desse tipo.
	 claro. Qual  sua comida preferida?
	Chocolate. Sei que no  muito original, mas estou sendo sincera.
	Uma escolha popular. Ningum poder censur-la por  ter gostos exticos.
	No  ela riu, encolhendo-se no fundo da barraca para fugir da chuva, cada vez mais forte.
Rpido, Kurt fechou a barraca com o zspere sentou-sc de maneira mais confortvel.
	Onde estudou?  perguntou em seguida.
	Em Denver, c claro Ano aps anos, sempre com as mesmas pessoas. Meus pais tambm nasceram l, e vivem na mesma casa desde que se casaram.
	Teve algum namorado firme no colgio?
	Oh, no! Eu era magrela, e mais alta que todos os garotos da minha idade. Ningum se interessava por mim.
	 difcil de acreditar.
	Mas  verdade. As mulheres da famlia Claybourne desabro cham muito tarde, mas eu ainda tive mais sorte. Dec...  c parou, respirando fundo ao perceber que pronunciara o nome da melhor amiga.  Dee era extremamente popular, e sempre me inclua em seus encontros. Os garotos eram malucos por Dee, e concordavam em sair comigo s para estar perto dela.
Triste, lembrou-se dela c da amiga ainda adolescentes.
	Quem era Dec?
	Minha melhor amiga. ramos como irms. Dcc tinha dois irmos, c eu sempre fui filha nica. Morvamos em casas vizinhas, e estvamos sempre  disposio uma da outra. Mame diz que comeamos a brincar juntas quando ainda usvamos fraldas  e parou, incapaz de esconder a emoo.  Dec morreu num acidente h alguns meses.
Kurt emitiu um gemido chocado e abraou-a, obrigando-a a pousar a cabea cm seu peito.
Alguns minutos mais tarde, quando finalmente conseguiu conter as lgrimas, Andrca enxugou o rosto com o leno que ele havia retirado do bolso do short c disse:
	Sinto muito. No queria chorar desse jeito, mas isso acontece sempre que lembro de!a.
	No c fcil perder algum querido.
	No, no c. E a morte de Dce foi... Foi uma perda terrvel.
As vezes acho tudo muito irnico, sabe? Eu sempre censurava Dee porque cia vivia apenas o momento. Insistia na necessidade de planejar o futuro, mas ela ria e dizia: Mais tarde. Andrca. Mais tarde.
Fico imaginando se ela podia pressentir alguma coisa.
	Acho que no. E tambm acho que no devia pensar nesse tipo de coisa. S servem para deix-la ainda mais triste, e tenho certeza que Dee no gostaria de v-la infeliz.
	E acha que Sarah gostaria de v-lo sofrendo?  ela disparou, aproveitando a oportunidade.
	O que quer que eu faa? Que deixe a morte de Sarah sem respostas verdadeiras?
	Deixe-a descansar em paz.
	Eu preciso saber, Andrca, ou jamais terei sossego!
	Gostaria de ajudar  ela revelou, respirando fundo.
	Como?
	No sei. Posso permanecer atenta. Sou nova por aqui. e isso pode ser um ponto a meu favor. Talvez as pessoas falem comigo a respeito de Sarah, j que eu no a conheci, c talvez eu consiga ouvir alguma coisa que possa ajudar.
	Depois da morte de Dce, a ltima coisa que devia fazer era envolver-se na morte de outra pessoa. Por que quer ajudar?
Porque entendo o que est sentindo.
Kurt ficou em silencio por alguns instantes, e cm seguida murmurou:
	Acho que devia voltar para a minha barraca.
	No esquea sua correspondncia.
	Andrca...
	O que ?
	Voc nunca disse nada sobre... Bem. no sei se existe algum especial cm sua vida.
	Digamos que conheo um homem com fortes possibilidades.
	Entendo  ele respondeu, visivelmente desapontado.  No sei por que estou to surpreso. J devia saber que havia algum em sua vida.
	Devia, especialmente porque... esse algum  voc  e ergueu o rosto, oferecendo os lbios para um beijo.
Estava pronta para abraar a vida novamente, mas Kurt no parecia pronto a abrir mo de suas reservas. Depois de alguns segundos, afastou-se e empurrou-a at que os corpos deixassem de tocar-se.
	O que houve?  ela perguntou, sem preocupar-se em esconder a tristeza.
	Isso no  certo.
	Por que no? Estamos interessados um no outro! Qual  o problema?
	Voc estava chorando, precisando de conforto, c isso foi tudo o que aconteceu.
	Foi assim que tudo comeou, mas...
	Por favor, Andrea! Eu sou um instrutor!
	E da? No cometemos nenhum crime, Kurt! Est agindo como se demonstrar ternura fosse ofensivo!
	E voc est esquecendo nosso relacionamento profissional Atirar-se nos braos do supervisor no c uma atitude digna de unia recruta cm treinamento.
	O problema no c o trabalho! E voc! Tem medo de aproximar-se de mini, por causa de Sarah!
- No sabe o que est dizendo!
- Sei! Ns dois perdemos um ente amado. Quando Dee morreu, eu decidi continuar vivendo como ela gostaria que tosse, mas quando Sarah morreu...
	Deixe Sarah fora disso!
	Quando Sarah morreu, voc decidiu seguir o caminho menos arriscado. Por isso insiste em me manter afastada! Acho que seramos perfeitos juntos, mas voc nunca saber com certeza, se no nos der uma chance!
	No quero outra mulher em minha vida. Especialmente voc!
Furioso, ele recolheu a correspondncia, abriu o zper da barraca e partiu.

CAPTULO VIII
A correnteza est cada vez mais forte  ..Andrea comentou, apesar da disposio de evitar conversas desnecessrias depois da rejeio da noite anterior.
	Mantenha os remos firmes. As maiores corredeiras ficam  frente de onde estamos, c estaremos alcanando a primeira delas em breve.
	Qual ser a primeira?
	Kwagunt. no cinquenta e dois.
	O qu?
	A localizao das corredeiras  dada pela quilometragem do rio, a partir do marco zero. cm Lccs Ferry. Piercc Fcrry, no final do Canyon, c o ponto duzentos e setenta c nove. Kwagunt fica no quilmetro cinquenta e dois, entendeu?
	Entendi. Onde ficam as maiores corredeiras?
	Entre os quilmetros noventa c cinco e noventa e oito. As maiores so Ermito. Cristal, Tuna Crcek e Mandbula da Morte.
	Mandbula da Morte?
	No se deixe enganar pelo nome. Ermito c muito mais assustadora, c depois dela vem Cristal. Na verdade, Cristal  a mais popular de todas, e a maior parte dos visitantes caminha ate a cabeceira da corredeira para desc-la cm botes. Sarah amava Cristal.
Era sua favorita. Se quiser, podemos ir at l.
	No sei...
	Caso esteja preocupada, Sarah no morreu cm Cristal. Se quiser conhec-la, juro que...
	No sou Sarah!  ela o interrompeu.  E no sou nenhuma caadora de emoes. Para ser bem honesta, estou mais interessada nas runas indgenas do que nas corredeiras. Prefiro caminhar e conhecer lugares novos e fascinantes, a passar o dia todo sentada dentro de um bote.
	Eu tambm. Ainda no conheo todas as runas, mas prefiro esperar at que tenha descido sua primeira corredeira. Talvez mude de ideia.
	Duvido. Odeio surpresas, sabe? Meu lema c calma c controle.
	Veremos. Em poucos minutos, estaremos atingindo a primeira descida. Siga meus movimentos c, se ficar confusa ou desorientada,
suspenda os remos c deixe o controle comigo. Entendeu?
	Entendi.
	Certifique seu colete salva-vidas c veja se o cinto de segurana est bem ajustado sobre seus joelhos. Se acontecer algum imprevisto...
	Como perder os remos, por exemplo?
	Como cair na gua. por exemplo. Nesse caso. no tente enfrentar a correnteza. Est suando um colete salva-vidas, c a nica coisa que deve fazer  deixar-se levar pela gua. Mais cedo ou mais tarde, acabar alcanando uma rea mais calma, c ento s ter de nadar at a margem.
	E esper-lo l, certo?
	Certo. O principal c no entrar em pnico. Mesmo nas corredeiras mais longas, as descidas jamais levam mais de quatro minutos. Se conseguir concentrar-se na respirao c manter a calma, tudo acabar bem.
	Acho que prefiro me concentrar para no cair do bote.
	Uma deciso muito sensata.
Andrca tinha certeza de estar preparada, mas nada poderia ter antecipado a excitao de descer uma corredeira do Colorado. A fora da gua atingia seu rosto com um poder que a amedrontava c entusiasmava, c o estrondo ensurdecedor ameaava envolv-la numa onda de euforia. Mantendo os joelhos no fundo do bote, uniu as pernas com fora sob o cinto d segurana c concentrou-sc nos remos.
Quando finalmente chegaram a uma parte mais calma do rio, Andrca mal conseguia respirar.	
	E ento?  Kurt perguntou.
	Uau!
	 de tirar o flego, no?  cie sorriu.
Andrca afirmou com a cabea c afastou uma mecha de cabelos que caa sobre seu rosto.
	Ainda acha que prefere conhecer as runas indgenas?  ele insistiu.
	Acho que preciso de algo mais calmo, como deitar sobre a areia e ficar quieta durante duas horas.
Suas costas doam, e os msculos dos ombros beiravam a exausto. Kurt levou o bote at a margem e saltou, puxando-o at a areia com a fora dos braos.
	Agora vamos montar nossas barracas, comer alguma coisa e descansar.
	Foi a melhor coisa que disse hoje  ela riu.
Em seguida respirou fundo e, apesar das dores no corpo, obri-gou-sc a saltar da pequena embarcao. Havia acabado de pisar no cho, quando uma das pernas sofreu unia cimbra violenta e ela caiu, o rosto na gua fria do rio.
Imediatamente, Kurt levantou-a e carregou-a ate a areia, onde a fez sentar-se.
	Di muito?  perguntou, lutando para conter um sorriso.
	Mais do que pode imaginar. Eu disse que no estava habituada a ficar sentada.
	A maior parte dos recrutas cai do bote no meio da corredeira.
Voc  a primeira que espera para mergulhar cm meio palmo de gua  brincou, massageando a regio contrada.
	Muito engraado. Ai! Isso di!
	Vai passar num minuto. Sc puder conter sua timidez e tirar a nio da...
	No  timidez! S no quero ser acusada de me atirar em seus braos novamente.
	Esquea! Ningum c capaz de fingir uma cimbra.
	Solte minha perna!  ela irritou-se, usando o outro p para empurr-lo.
De jeito nenhum! Fique quieta, ou no vou conseguir cuidar disso.
Apesar da raiva, Andrea resignou-sc e esperou ate que ele terminasse a massagem. Surpresa, percebeu que a dor havia desaparecido, c que a cimbra finalmente cedera aos dedos experientes.
Aliviada, sentiu que ele afastava as mos de suas pernas, e s ento notou o quanto estavam prximos.
	Obrigada por...  c parou, sentindo as mos cm seu rosto.
	Por nada  KUrt sussurrou, antes de beij-ia rapidamente nos lbios. Em seguida, antes que cia pudesse reagir, afastou-se e fitou-a com ar divertido, notando a confuso que a dominava.  Feche a boca.
Sem saber o que fazer, Andrea virou-se e esperou que ele se afastasse, mas Kurt sentou-sc a seu lado e, perfeitamente relaxado, comentou:
	Voc est horrvel. Onde deixou aquele espelho?
Devia lhe dar uma resposta  altura mas. reconhecendo o tom de provocao, respirou fundo c disse:
	Na mochila  prova de gua. Pretendo retocar a maquiagem mais tarde, se no se importar.
	No me importo. Voc fica bem de qualquer jeito.
	Mesmo molhada, exausta c coberta de lama?  ela riu.
	Mesmo assim.
.    Bem, gosto no se discute. E j que me ajudou a sair daquele rio inteira, vou fingir que no notei o tom de sarcasmo. Kurt riu c explicou:
	Aquela corredeira era s um filhote. Se quiser, podemos ir at Lava Falis, no meio do Canyon.
	Por que c chamada de Lava Falis?
	Porque h um velho vulco bem no meio dela.
	E quer que eu saia do meu caminho, s para ir me arrebentar num vulco? No, obrigada.
	Est com medo?
	Vamos dizer que prezo a integridade dos meus ossos.
	Certo. Falando em ossos, como est a perna?
	Dolorida, mas a cimbra passou. Mais alguns minutos aqui, e estarei perfeita novamente.
	timo. Enquanto isso, vou tentar me recuperar daquele chute.
	No foi um chute! Foi s um empurro.
	E as pessoas dizem que eu sou temperamental.
Andrea decidiu ignorar o comentrio. Estava feliz por terem conseguido afastar a tenso que os acompanhava desde aquela manh, e no provocaria uma discusso que certamente a traria de volta.
Kurt estendeu as pernas e comentou:
	As maiores corredeiras no ficam no Colorado, mas em seus quatro afluentes. Por isso o rio no  navegvel. O leito  fundo, e a fora da gua torna seu curso imprevisvel.
	E por isso ele  to perigoso.
	Isso mesmo. Os quatro afluentes despejam um volume de gua impressionante na correnteza principal, e existem pontos onde todos tm de sair do rio, inclusive ns. Existem algumas quedas onde nem mesmoos barcos mais modernos podem passar.
Pense no que enfrentamos, e imagine o que os pioneiros tiveram de suportar no Canyon. Em 1869, John Wesley Powell levou trs meses para percorrer o Grand Canyon em sua expedio de mapeamento.
	Trs meses? Mas s levaremos uma semana, e tambm no temos motores.
	A expedio de Powell usava barcos de madeira lentos e pesados, em vez de botes inflveis como o nosso. E Powell s tinha um brao...
	Um brao? O que aconteceu com ele?
	Era um veterano da Guerra Civil, alm de gelogo e etnologista.
Powell escreveu vrios livros a respeito de suas viagens.
	Eu sei, e acho que deve ter sido um homem muito corajoso.
	Concordo. Aqueles tempos eram difceis.
	Sim, mas muito mais simples.
	Talvez. Mas, de certa forma, a vida  sempre igual. Somente os fortes sobrevivem.
Andrea pensou em Sarah e, incapaz de conter-se, respondeu:
	A fraqueza no  apenas um aspecto fsico. A fora tambm vem do corao, Kurt.
Em silncio, ele limitou-se a encar-la com expresso aborrecida.
O silncio tornou-se incmodo e, com um suspiro, Andrca levantou-se c sugeriu:
	Vamos montar o acampamento.
Uma hora mais tarde, haviam erguido as barracas, vestido roupas secas c terminavam de comer a refeio rpida que levaram nas mochilas.
	Ate onde iremos amanh?  ela perguntou, enquanto saboreava o caf.  Tem ideia da distncia que percorremos por dia?
	Cerca de vinte c cinco quilmetros. Devemos chegar a Bright Angel amanh, c ento poderemos parar por algumas horas na estao de Kaibab.
- J estive nesse posto.
	Sim, no incio do treinamento. E um dos maiores. Vamos aproveitar para refazer nosso estoque de comida e gua, c planejar a prxima etapa de nossa expedio.
	Ainda no vi nenhuma runa. At agora, ou estivemos cansados demais para andar, eu tivemos de nos esconder da chuva dentro das barracas.
Kurt olhou para o cu e opinou:
 Parece que hoje no ser diferente. Sc o tempo no melhorar, teremos de cancelar no s o passeio s runas, mas a viagem inteira.	.
Era bvio que a possibilidade de afastar-se dela o agradava, mas Andrca preferia seguir cm frente. No s para terminar o treinamento de uma vez por todas, mas porque considerava a oportunidade perfeita para fazc-lo mudar de ideia sobre a morte da esposa.
Mas a chuva caiu com fora ainda maior, c continuou nos dias seguintes. Andrca sentia frio, c seguia silenciosa e miservel pelas guas do Colorado. Quando chegaram  estao de Bright Angel, j tinha certeza de que a expedio seria cancelada.
	Vamos ter de adiar  Kurt avisou ao descerem do barco.  No posso sair novamente com essa chuva. Terminaremos essa etapa do treinamento quando o tempo melhorar.
Quando terminaram de guardar o equipamento e a comida nas prateleiras da estao, dirigiram-se s cabanas de Phantom Ranch. onde passariam a noite.
	Amanh voltaremos caminhando  ele disse.
Andrea afirmou com a cabea, s para demonstrar que o ouvia. No estava preocupada com a volta. Nesse momento, s queria uma refeio quente, um banho ainda mais quente e uma cama confortvel. E um telefone! Emily e a famlia j deviam estar no hotel, no alto do Canyon!
	Est ficando tarde  Kurt comentou.  Se formos tomar banho c mudar de roupa, perderemos o horrio da refeio.  melhor irmos primeiro ao refeitrio, e depois teremos tempo de sobra para o resto.
	Sugesto aprovada  ela respondeu cm voz baixa, pensando numa deliciosa xcara de caf quente c forte.
Entraram no refeitrio c Andrea livrou-se da mochila ensopada, enquanto Kurt ili ler o cardpio sobre o balco de saladas.
Havia acabado de retirar o casaco molhado, quando algum gritou seu nome na porta. A voz eufrica c infantil no deixava dvidas.
	Emily?  Andrca surpreendeu-se, virando-se a tcmpo de receber a pequena entre os braos.  Ol. meu bem! O que est fazendo aqui?
	Samos para um passeio de mulas, mas a chuva caiu c... E agora estou feliz por ter vindo!
	Emily, volte aqui  uma mulher censurou-a com energia.
	 ela, vov! Esta  Andrea!  e agitou-se, indicando que queria voltar ao cho.
Vcndo-a pular c bater palmas, Andrea preocupou-se e disse:
	V com calma, mocinha. Sua perna...
	Est tima!  a pequena interrompeu, levantando a perna direita para provar o que dizia.  Est vendo? No sinto mais dor!
Os pais e os avs de Emily aproximaram-se para cumpriment-la, e Andrca viu-se cercada por um clamor embaraoso. Sem saber o que fazer, permaneceu imvel, segurando a mo da pequena c esperando que o entusiasmo geral diminusse, o que s aconteceu com a chegada de Kurt.
	Desculpem. No quero interromper, mas o refeitrio ser fechado em alguns minutos. Quct que eu traga alguma coisa para voc, enquanto cumprimenta seus amigos?
	Por favor. Kurt. Traga qualquer coisa, c uma grande xcara de caf.
	Este c seu parceiro?  Emily perguntou.  O homem de quem falou nas cartas?
Kurt respondeu por ela:
	Isso mesmo, meu bem. Sou Kurt Marlowe, o instrutor de Andrca.
	Ol. Eu sou Emily Jenkins.
- E estes so os pais e os avs de Emily  Andrea apresentou.
	So os amigos de Dcnvcr?  Kurt perguntou com um sorriso gentil.
	Andrca me carregou quando quebrei a perna  Emily explicou.
 Nos conhecemos naquele avio que pegou fogo.
	Ele... no conhece essa histria, querida  Andrea interferiu, notando o olhar atento de Kurt cm seu rosto.

	No contou a ele sobre o acidente, c sobre como salvou a vida de minha filha?  o sr. Jenkins surpreendeu-sc.
	Voc sofreu um acidente areo?  Kurt perguntou cm voz baixa.
	Sim, cm Denvcr. No ltimo inverno  o av de Emily contou, retirando alguns recortes do jornal da carteira. Andrca aparecia cm todas as fotos, descala, atravessando a camada de neve com uma criana desacordada nos braos. Atrs dela, a silhueta incandescente do avio contava toda a histria.
Angustiada, ela fechou os olhos e tentou conter a invaso das memrias.
	Com licena  gemeu.  Preciso descansar um pouco.
	Mas eu quero ficar com voc!  Emily protestou.
	S vou mudar de roupa, est bem. querida?
	No quer jantar?
	Mais tarde.
Aflita, saiu do refeitrio e correu para a cabana, certa de que s precisava afastar-sc daqueles recortes de jornal'para voltar ao normal. Apenas alguns minutos de solido, c estaria bem novamente.
Mas, ao entrar na cabana. Andrca teve certeza de que era tarde demais para fugir. A porta cia memria havia sido aberta, e as lembranas a atacavam com fora demolidora.
Lembranas de fogo c sangue, de gritos e aflio. Lembranas do momento mais doloroso de sua vida. quando perdera a melhor amiga e desistira da carreira pela qual tanto lutara.

CAPTULO IX

Andrca prcparava-sc para deitar, quando algum ba-Ltcu na porta da cabana.
	Quem ?
	Sou eu. Kurt. Posso entrar?
Resignada, calou as botas e foi abrir.
	Pensei que j estivesse dormindo  ele disse.
	A famlia de Emily saiu daqui h menos de dez minutos.
Haviam ido v-la logo aps a sada do refeitrio, c Kurt os acompanhara. Levara um sanduche de queijo, frutas, c depois partira, deixando-a com suas visitas.
	Voc est bem?  ele perguntou, sentando-se na nica cadeira do quarto.
Acomodada novamente na cama, Andrea cruzou as pernas  moda indgena c fingiu surpresa:
	 claro que sim! Por que no estaria?
	No sei. mas... Voc saiu do refeitrio como se houvesse visto um fantasma! Assustou-se com a visita?
	Mais ou menos  ela admitiu.  J havia conversado com os pais de Emily no hospital, cm Dcnvcr. mas no conhecia seus avs. No podia imaginar que ainda carregavam recortes de jornais sobre o acidente.

	Deve ter sido terrvel rever aquelas fotos.
	Foi horrvel, mas j estou bem.
	Por que nunca falou sobre o desastre?
	Voc costuma sair por, a falando sobre a morte de Sarah?
	Agora entendo. Dcc estava naquele avio, no ?
	Ela era a outra comissria de bordo, e foi a nica vtima fatal  Andrea revelou.  Irnico, no? Um avio cheio de estranhos, c a nica morte foi a de minha melhor amiga.
	Devia seguir seus prprios conselhos. Por que atormentar-se com esse tipo de pensamento?
	No costumo pensar no desastre, mas aquelas fotos...
	Preferia que a famlia de Emily no tivesse vindo?
	Oh, no! Estou muito feliz, c rever Emily me faz sentir coisas boas. No pude ajudar Dcc, mas salvei a vida de uma criana, e isso torna tudo menos penoso.
Kurt ficou cm silencio durante alguns instantes, antes de dizer:
	Se Sarah houvesse conseguido salvar aquelas trs pessoas, acho que estaria mais conformado com sua morte.
- Kurt, no se pode chorar os mortos eternamente!
	E o que espera? Que minha filha e eu sigamos vivendo como se nada houvesse acontecido?
	No, rfias... Devia pensar mais na vida, no na morte. E se acha impossvel, ento est no emprego errado. Por que no pode simplesmente conformar-se com a morte de Sarah?
	Porque espero que a verdade ajude Lynn a compreender os fatos.
	E voc? O que poder ajud-lo? A vida  preciosa, Kurt! No pode desperdi-la agarrando-se ao passado!
	No estou agarrado ao passado  c levantou:sc, dirigindo-se  porta com passos firmes.  Boa noite.
Com o corao pesado, Andrea o viu sair e teve certeza de que era tarde demais para controlar os sentimentos.
Dois dias mais tarde, a chuva parou e os dois puderam retomar a expedio pelo rio.
	Espero que no chova novamente  Kurt comentou, usando os remos para impulsionar o barco ate'a correnteza.  O cu ainda est cheio de nuvens escuras.
Andrea permaneceu cm silncio, e ele virou-se para fit-la.
	Devia dizer alguma coisa, como tambm espero que no chova.
	Por qu, se passou dois dias me evitando? Jamais imaginei que um homem como voc pudesse ser to... covarde!
	Covarde?
	Exataniente! Tem medo c mini. da vida... Se no estivesse vendo, juro que no acreditaria.
	Sc eu fosse voc. prestaria mais ateno aos remos. Estamos nos aproximando de uma corredeira.
	Estou preparada.
	Espero que sim. porque acabamos de entrar nela.
Quando alcanaram guas mais calmas. Andrea tinha a impresso de que o corao ia saltar do peito.
	E ento?  Kurt perguntou.
	Estou bem  ela murmurou, tentando recuperar o flego.
	Vou levar o bote para a margem. Preciso descansar um pouco, e voc tambm parede exausta.
Em poucos momentos, Andrea encontrou-sc sentada sobre a areia macia da margem, c seu suspiro aliviado foi imediatamente notado por Kurt.
	O rio est mais rpido que o normal. Devem ter aberto as comportas na cabeceira por causa da chuva  opinou, olhando para o Colorado com expresso preocupada.
- Vamos ler de cancelar a expedio novamente?
	Acho que sim. pelo menos ate fecharem as comportas.
	E o que faremos, enquanto elas permanecerem abertas? Montaremos acampamento para esperar?
	Tambm podemos caminhar. Vou entrar em contato com o rdio da estao Gien Canyon para saber quais so as condies, e depois decidiremos o que fazer. A transmisso  pssima aqui em baixo  comentou, retnovendo o equipamento da bolsa  prova de gua.  Vou subir alguns metros para ouvir melhor. Espere aqui.
est bem?
Andrea o viu escalar a pequena encosta acima da margem e decidiu fazer um caf no pequeno fogo  gs. Estava terminando de preparar os utenslios, quando Kurt voltou c avisou:
	Pode desistir do seu caf. No temos tempo.
	Por qu? O que aconteceu?
	Vamos ter de efetuar um resgate.
	Um resgate? Onde? Quem?  ela disparou, guardando os utenslios com velocidade surpreendente.
Um turista tentou descer o rio num caiaque, e a estao informou que o barco arrebeniou-se contra as pedras do meio da correnteza.
	A vtima est ferida?
	A pessoa que o viu acha que sim. Est agarrado s rochas onde o barco se chocou, mas no vai aguentar muito tempo. H uma queda d'gua alguns metros abaixo, mas s os peritos se atrevem a descer aquele trecho pelo rio. O normal  contornar a regio pela margem, caminhando.
	No podemos usar os helicpteros?
	Com esse tempo? Impossvel.
	E as patrulhas fluviais? Eles usam barcos motorizados.
	Esto a caminho daqui, mas tiveram problemas. Parece que Judy caiu do barco.
	Ali. no  Andrea gemeu. Por alguma razo, a notcia no a surpreendia.
	Ah. sim. Dan est ocupado, tentando resgat-la, quando chegarem ao local do acidente, ns j estaremos l.
	Quanto tempo levaremos para contornar a regio por terra?
	Voc vai sozinha.
	O qu? Kurt. eu nunca treinei um resgate desse tipo, especialmente com uma correnteza to forte!
	No espero que resgate a vtima sozinha. A caminhada at l leva. no mnimo, quarenta e cinco minutos, e talvez seja tarde demais.
Vou tentar chegar l pelo rio.
	O qu? Vai descer a queda d'gua num bote inflvel?
	No sou nenhum amador. Andrea. Ser difcil, mas sei que conseguirei chegar perto o bastante para jogar uma corda para a vtima.
	Voc perdeu o juzo? Sabe melhor que eu qual  o procedimento nesses casos!  Eu fico na margem, c voc ancora o barco numa rea segura, de onde possa puxar a vtima.
 Se houver tempo, tentaremos o procedimento indicado. Se nao... V andando, e me encontre alm da queda d'gua. Sc eu no Conseguir alcan-lo, nos encontraremos alem da corredeira e tendemos localiz-lo na parte mais calma tio rio.
	Isso. se voc no precisar ser resgatado! Kurt.  muito arriscado!
	 um risco que tenho de correr.
	Isso  absurdo! Sei que precisa proteger a vida dos visitantes, mas no pode esquecer a sua!
	No quero que esse homem acabe como Surah! E pare de me segurar aqui. porque cada segundo pode ser vital.
	E como acha que vai ajud-lo, se tambm cair na corredeira?
Isso c contra tudo o que aprendi. Kurt! Contra tudo o que voc me ensinou!
	Tambm ensinei que seu trabalho envolve riscos. E agora, mova-se!
	Foi assim que Sarah morreu? Correndo riscos desnecessrios?
	No sabe o que est dizendo!
- Este rio c cheio de quedas d"gua. c voc disse que Sarah, caiu do bote perto de uma delas. Por acaso ela julgava melhor seguiri pela rota niais rpida, independente dos perigos?
	E caro que no! Ela conhecia o regulamento! Eu ensinei todas as normas!
	E por que no as segue?
	Eu fao minhas regras! Sou um perito nessas corredeiras.
	Sarah devia pensar que tambm era.
KLJrt permaneceu cm silncio, encarando-a com ar indignado.
	No vou deix-lo cometer essa loucura. Kurt! Vamos descer caminhando, juntos, e vamos resgatar a vtima juntos!
	No. Minha deciso j est tomada.
Andrea respirou fundo. Sabia que ele estava errado, mas tambr sabia que no o faria mudar de ideia.
	Tudo bem. Vamos fazer como voc diz  resignou-se.
Vou pegar a maleta de primeiros socorros no bote.
Ele afirmou com a cabea e Andrea aproximou-se do barco. Mas. ou vez. da maleta, agarrou os remos e. rpida, tirou-os da embarcao.
	O que est fazendo? Andrea. no!
Determinada, atirou os remos na gua e os viu desaparecer nas correnteza, arrastados pela fora do rio. Kurt agarrou-a pelos ombrwB e obrigou-a a virar-se.
	Sua idiota! Sabe o que acabou de fazer?
	Pode apostar que sim! E trate de me soltar. Kurt Marlowe!
Temos uma vtima esperando por socorro, e voc est desperdiando um tempo precioso!
	 voc quem est prejudicando o salvamento!  Apesar da fria, soltou-a e respirou fundo, compreendendo que no tinha alternativa.  Pegue o equipamento de socorro e vamos descer a margem, depressa!
Alguns minutos mais tarde, os dois corriam ao longo do curso do rio. O terreno era acidentado, c a descida inclinada que acompanhava a queda d'gua era simplesmente apavorante. Os respingos a atingiam no rosto, mas era mais fcil lidar com eles do que com a contrao dolorida em seu estmago. Ao olhar para a fora da correnteza, pensou cm Kurt descendo a catarata no pequeno bote inflvcl c arrepiou-se, imaginando o que poderia ter acontecido.
Kurt chegou ao final da descida primeiro, mas ela o alcanou segundos depois.
	Conseguiu v-lo?  ele gritou, tentando ser ouvido acima do estrondo da gua.
	No  Andrea respondeu no mesmo tom. sem explicar que fora incapaz de manter os olhos fixos na correnteza.
	Temos de encontr-lo... Veja! L est ele!  e apontou para um pequeno ponto alaranjado no meio da espuma branca.
Andrea afirmou com a cabea, indicando que tambm localizara o capacete da vtima. Rpidos, preparam as cordas e Kurt vestiu a armao de ferro por sobre o colete salva-vidas que sequer havia chegado a retirar. A gua continuava batendo contra as pedras, violenta c assustadora.
	Sabe o que deve fazer?  ele perguntou, prendendo a corda a armao de ferro.
	Sim, Tome cuidado  pediu, vendo-o caminhar em direo ao rio.
Kurt ergueu o polegar da mo direita e entrou na gua.
Firme. Andrea segurou a corda que ele prendera  pedra mais prxima, tentando dirccion-la. A correnteza era fone e rpida, mas K      tinha experincia, c aproximava-se da vtima com velocidade e preciso, suas braadas vigorosas demonstrando toda a fora fsica que adquirira ao longo de anos de treinamento.
Ao v-lo prender a segunda armao de ferro no corpo do rapaz, Andrea prendeu o flego e esperou pelo aceno, sinal de que deveria pux-los de volta. Segundos depois, Kurt ergueu a mo e ela comeou a puxar, descobrindo uma fora que sequer sabia possuir. Lentamente, os dois homens finalmente chegaram  margem.
A vtima parecia prestes a desmaiar, e deixou-se cair assim que sentiu a terra firme sob os ps.
	Ele est com unia perna fraturada!  Andrea avisou, notando a posio estranha do joelho.
	E o brao direito, tambm  Kurt completou, erguendo o rapaz nos braos para lev-lo  regio mais alta. longe da gua.
	Pea ajuda pelo rdio, enquanto eu cuido dele  Andrea sugeriu.
Kurt podia ser o supervisor, mas seus conhecimentos em atendimento de emergncia o superavam.
Notando que ele reconhecia.sua supremacia, Andrea prosseguiu:
	Sc no podemos contar com os helicpteros para tir-lo daqui, ento teremos de pedir um barco motorizado. No podemos colocar uma vtima inconsciente sobre unia mula.
	Vou ver o que posso fazer. Precisa de ajuda com as talas?
	No. Quando terminar de falar com a estao, traga toalhas c um cobertor, por favor.
	Virei o mais depressa possvel.
Andrea trabalhava depressa e com confiana c. quando Kurt voltou, o paciente j estava devidamente imobilizado.
	O socorro chegar a qualquer instante  ele avisou.  O barco que faz as viagens de turismo pelo rio acabou de deixar os ltimos passageiros, c est vindo para c. Vo nos ajudar a levar a vtima para a estao de Bright Angel.
	Sabe se eles tm uma maca?
	J providenciaram, e traro mais dois patrullieiros para ajudar na remoo.
	E Judy? Alguma notcia?
	Ainda no.
Andrea respirou fundo c fez uma prece rpida pela nova amiga.
Enquanto voc cuida da vtima, vou buscar nosso equipamento e esvaziar o bote. Com a ajuda do barco de passageiros, poderemos levar tudo de uma s vez.
Minutos mais tarde, os dois receberam a chegada do grupo de socorro com suspiros de alvio.
	Aquele no  Earl?  Andrea perguntou.  O patrulheiro que nos levou a correspondncia?
	Sim.  ele mesmo  Kurt confirmou, visivelmente tenso.
Earl aproximou-sc c anunciou:
	O barco est a cinco minutos daqui, alm da correnteza. Acha que o paciente pode ser transportado?
	Acho que sim  Andrea respondeu.  Apesar das leses, os sinais vitais permanecem fortes e estveis.
	Sabe como o acidente aconteceu?  ele perguntou, preparando a maca e ajudando os outros trs a acomodarem o rapaz inconsciente.
Kurt respondeu:
	Ele desceu uma queda d'gua que devia ter sido contornada por terra. Exatamcntc como Sarah. Certo, Earl?
	Eu nunca disse isso  Earl protestou com tom incerto.
	Mas c a verdade. Foi assim que ela morreu. Agora tudo faz sentido, Earl. O silncio de Jim, o seu, dos outros... Por que no pensei nisso antes?
	Como descobriu? Algum decidiu contar a verdade, depois de todo esse tempo?
	Por que no me disse, Earl?
	O parceiro de Sarah tentou convenc-la a descer pela margem, mas ela disse que seria perda de tempo c seguiu pelo rio, sozinha.
Decidimos esconder a verdade, porque achamos que seria melhor se voc c Lynn a considerassem uma herona, em vez de... Bem, cm vez de uma maluca sem noo de perigo.
Quando o barco motorizado os deixou na estao mais prxima, o vento havia diminudo c a vtima pde ser transportada num helicptero. Aliviada. Andrea soube que Judy estava bem, e que tambm seria transportada pela mesma aeronave. Earl e o parceiro prepararam-se para retomar a caminhada ao longo das margens, e Andrea
e Kurt deveriam seguirem frente e apresentar-se no posto de patrulha mais prximo.
Andrca gostaria de oferecer algum tipo de consolo, mas sabia que nada poderia diminuir a dor que o dominava. Silenciosa, pousou a mo em seu ombro c o viu virar-sc para fit-la.
	Irnico, no? Uma comissria de bordo compreendeu em dois meses o que estou tentando descobrir h mais de dois anos. Meu Deus. Andrea! Eu era o nico que no sabia!
Sentaram-se sobre uma pedra e. diante do majestoso Colorado, ela o abraou, retribuindo o conforto que ele lhe oferecera h alguns dias, quando havia chorado por Dee.
	Eu no sabia, Kurt. Disse aquelas coisas para faz-lo desistir, mas no tinha ideia... S queria impedir que corresse perigo.
	Pelo menos consegui descobrir a verdade. No quero que a vida de minha filha seja construda sobre mentiras. Voc disse que me ajudaria, c realmente me ajudou.
	E agora? O que pretende fazer?
	Acho que vou passar algum tempo em casa. com minha filha.
Preciso falar com ela sobre a me, sobre toda a felicidade que conhecemos juntos. Lynn precisa saber que Sarah a amava, e que era uma profissional competente, que cometeu o erro de superestimar suas habilidades.
	No vai ser fcil.
	No, mas c necessrio.
	Quando pretende partir?
	Amanh, talvez. Vou requisitar algum para terminar seu treinamento.
	Prefiro esperar seu retorno.
	No  ele levantou-se.
	Mas...
	Vamos voltar a Bright Angel c depois seguiremos de mula at o escritrio central. Quero ter uma boa conversa com Jim.
	Vai falar sobre Judy. no c? Acha que pode...?
	Andrca. no vou falar sobre Judy. Pretendo partir, e preciso discutir o assunto com Jim.
	Vai partir... para sempre?
	Agora que sei a verdade sobre Sarah. pretendo aceitar aquele emprego em Phocnix.
	Por que Phocnix?  ela perguntou, tentando esconder o de sespero.
	Porque c onde meus pais vivem, e onde minha filha est.
 Podia traz-los para Flagstaff. onde moravam antes. Por que est fazendo isso? Por que quer afastar-se daqui? Para fugir de mim?
	Lynn  a principal razo de minha existncia, e voc no tem nada a ver com minhas decises.
	Mentiroso!
Determinada, levantou-se c aproximou-se dele, beijando-o com paixo.
Kurt no resistiu, e esperou que ela se afastasse para dizer:
	Eu no posso...
	Por qu?
	Por causa de Sarah! Ela morreu por minha culpa, e acho que no tenho competncia para treinar mais ningum.
	Acredita mesmo nesse absurdo? Ou est querendo apenas me fazer acreditar?
Em silncio. Kurt balanou a cabea c comeou a caminhar pela trilha. Sabia que estava jogando fora algo valioso, mas... No tinha alternativa. Teria de viver sem Andrea, por maior que fosse a dor de deix-la.

CAPITULO X

No pode aceitar a demisso de Kurt, Jim!
Ele acha que poderia ter evitado a morte de Sarah. que no  um bom supervisor, e temos de faze-io entender que est cnganadol
	J tentei fazc-lo desistir, Andrea. mas cie est determinado.
Ofereci alguns dias de licena, mas terei de aceitar a demisso se ele insistir cm desligar-se do parque.
	Por quanto tempo pode manter a licena?
	No mximo duas semanas.
	No pode obrig-lo a ficar at o final do meu treinamento?
Talvez eu consiga convenc-lo...
	Kurt j a aprovou. Andrea. Agora voc  uma patrulheira, e deve comear o treinamento especfico com os helicpteros em...
oito dias!  exclamou, como se houvesse tido unia grande ideia.
 O que acha de tirar uma semana de folga?
	Mas.,.
	Quero que fique perto de Kurt. Ele partir esta tarde para a casa dos pais. e voc ter uma semana para traz-lo de volta. Precisamos dele aqui!
Entusiasmada. Andrea correu para o quarto e mudou de roupa. Estava comeando a fazer as malas, quando foi interrompida pelas batidas na porta.
	No vou demorar  Judy avisou.  S quero me despedir.
	Vai partir?
	Eu... no sou uma patrulheira, Andrea. Quero ir embora, antes que algum acabe ferido por minha causa.
	Entendo. Aposto que precisou de muita coragem para tomar essa deciso.
	Voc sabe o quanto me ajudou.
	Eu?
	Sim. desde o inicio. E agora decidi que  hora de retribuir o
que fez por mim. Vou voltar para casa. em Flagstaff, e pretendo reassumir meu amigo emprego. E decidi processar meu chefe por constrangimento.
	Otima ideia!
	Sinto falta do trabalho no banco  Judy sorriu.  Apesar de tudo. no me arrependo de ter vindo para c. Conheci voc, Dan, e ns... Eu c ele...
Judy e Dan; um casal feliz? Vencendo a surpresa. Andrea disse:
	Se c isso que quer. Judy. fico feliz por ter tido coragem de mudar de ideia.
	Depois que o conheci de verdade, descobri que ele no era to ruim. Dan vai deixar o alojamento e mudar-se para Flagstaff, s para estar perto de mini.
	No diga!
Dan. fazendo concesses por uma mulher?
	Ele est feliz, e disse que vivia com medo de me ver ferida em uma dessas trilhas. Tambm est pedindo demisso.
	Dan j tem outro emprego?  Andrea estranhou, esperando que Judy no estivesse disposia a sustentar os dois.
	Oh. sim! File vai trabalhar como instrutor numa academia de ginstica de Flagstaff. No  maravilhoso?
	Sim.  tinio. Dan sempre preocupou-se em manter a forma fsica.
Na verdade. Andrea achava que Dan finalmente encontrara o lugar perfeito para exibir seus msculos.
Judy sorriu, concordando com o comentrio da amiga:
	Ele  o mximo! Est absolutamente a favor da nossa mudana, e acha que meu emprego antigo  muito melhor que este. Agora teremos mais tempo juntos.
Andrea no saberia dizer se tanto tempo seria uma coisa boa. mas invejava a felicidade de Judy. Era to doce e meiga, to flexvel.
que podia retomar a forma anterior sem o menor esforo, como um camaleo que muda de cor para adaptar-se ao ambiente que o cerca.
	Desejo toda a felicidade do mundo para voc c... Dan.
	Voc tambm merece ser feliz  ela abraou-a.  Adeus e boa sorte.
Sorte. Andrca no acreditava em sorte. Perseverana combinava mais com seu estilo, e precisaria de uma boa dose dela para convencer Kurt a permanecer no parque.
Meia hora mais tarde, com a valise cm uma das mos, Andrea dirigiu-se ao estacionamento privativo dos patrulheiros, onde colocou-se ao lado do jeep de Kurt.
	No devia estar trabalhando?  ele perguntou ao v-la.
	Estou de folga  c olhou para a bagagem, duas malas e uma caixa de papelo.  No  muita coisa para algum que est desistindo.
	Estou me demitindo, no desistindo. Vai visitar a famlia?
	Oh, no! Eu vou com voc  c jogou a valise no bagageiro.
Kurt entrou no automvel, apanhou a maleta e colocou-a no cho, ao lado dela.
	No me lembro de t-la convidado.
	E no convidou. Tenho uma semana de folga antes de iniciar o treinamento com os helicpteros, e Jim sugeriu que eu o acompanhasse  ela disse, devolvendo a valise ao porta-malas.
	Voc no tem o direito d interferir cm minha vida pessoal.
	Jim disse que eu devia acompanh-lo. Ele acha que voc est cometendo um grande engano, e eu penso da mesma forma. E mesmo que fosse diferente, j devia saber que sigo ordens, c que no faria nada que pudesse prejudicar meu trabalho  e entrou no jeep, sentando-se c ajustando o cinto de segurana.
	Saia do meu carro, Andrca! No tenho tempo para sua lgica absurda!
	Vai ter de me arrastar.
Por um minuto, Kurt pareceu disposto a aceitar a sugesto, mas finalmente respirou fundo, fechou a porta e foi acomodar-se diante do volante. No instante seguinte, saam do estacionamento em silncio.
O silncio os acompanhou at a rodovia para Phoenix, quinze minutos depois de terem sado do parque.
	No acredito que Jim tenha tido a ousadia de mand-la atrs de mim. Est perdendo seu tempo, Andrca! No vou mudar de ideia!
	Talvez, ms tenho de tentar.
	Por causa do seu trabalho?
	Porque acho que no deve desistir! Kurt. voc no pretendia demitir-se. Mas ento descobriu a verdade sobre Sarah e... A morte de sua esposa no  motivo para abandonar recrutas despreparados que ainda precisam de sua ajuda!
	Eu sou um pssimo exemplo.
	No seja ridculo! Est dizendo isso porque desce corredeiras que metade dos patrulheiros jamais pensou enfrentar. E da? Est aqui h dez anos, e tem habilidade suficiente para vencer a fora do rio.
	Eu cansei de dizer que ningum devia tentar me imitar, nem mesmo Sarah. E depois de todos os meus avisos, no pensei que ela tentaria descer aquela corredeira, especialmente sozinha.
	Est se afastando de um trabalho que ama por causa da morte de Sarah! No pode desistir, Kurt! O parque precisa de voc!
	Minha filha tambm precisa de mim, e eu preciso dela.
	Precisa dela como uma boa desculpa para fugir! Podia mudar-se para Flagstaff, onde existem boas escolas. Voc mesmo disse que seus pais esto ficando velhos, e precisam descansar. Por que ir para to longe?
	J pensou na possibilidade deste lugar despertar lembranas amargas?
	No podem ser to ruins! Ficou no Canyon por dois anos inteiros depois da morte de Sarah e, para isso, deixou sua filha em outra cidade! Portanto, no tente me fazer acreditar num sbita onda de preocupao paternal, ou cm algumas lembranas tristes que o fazem fugir como um coelho assustado! No queria que Lynn crescesse cercada por mentiras. Iembra-sc? Pofs trate de dar a exemplo, e seja honesto com voc mesmo!
Por um momento, Andrea teve medo de ter ido longe demais, tal era a fria estampada no rosto de Kurt. Mas, depois de alguns instantes, ele acalmou-se e prosseguiram a viagem em silncio.
Quando alcanaram os limites de Phocnix, Andrea finalmente reuniu coragem para perguntar:
	Ainda est aborrecido comigo?
Em vez de responder, Kurt anunciou:
	Na prxima parada, quero que telefone para Jim e diga que pegou uma carona ate Phocnix, mas no conseguiu me fazer mudar de ideia. Antes de ir para a casa de meus pais, vou dcx-la na rodoviria, de onde poder pegar um nibus e voltar.
	No vou voltar! Jim disse que eu devia permanecer em Phocnix, e c o que vou fazer!
Assim, teria uma chance de v-lo novamente Enquanto ele no dissesse que decidira deixar o Canyon por sua casa, ainda poderia ter alguma esperana.
	Por favor, prefiro ficar num hotel.
	Um hotel?
	Isso mesmo. Tenho alguns dias de folga, e pretendo aproveit-los.
	O que vai fazer?
	No sei. Talvez conhecer a cidade.
	Com quem? Com os avs de Eniily? Voc no tem sequer um carro!
	E da? Posso comparar um mapa e alugar um automvel.
	No gosto da ideia de sair por a sozinha, numa cidade que no conhece.
	Sou adulta, c perfeitamente capaz de andar sozinha por onde bem entender. E estou desapontada, se quer saber a verdade. Pensei que me levaria para conhecer sua famlia. Por que no combinamos um jantar? Gostaria de conhecer sua filha.
	Quer conhecer Lynn?
	Por que a surpresa? Voc fala tanto sobre a menina, que sinto at uma certa... inveja.
	Tenho sorte por ter uma filha to adorvel.
	Tenho certeza de que ela pensa o mesmo sobre o pai.
Kurt sorriu, c Andrea sentiu a tenso desaparecer de imediato.
	Por que no vai jantar conosco esta noite?  ele convidou.  Meus pais gostam de companhia.
	Mesmo que seja inesperada?
	Mesmo assim. Eles no saem muito.
	Ento ser um prazer. Obrigada. Kurt.
Invadida por uma nova onda de esperana, Andrea pensou que. talvez, algum dia ele pudesse retribuir seus sentimentos. Estava apaixonada por Kurt Marlowe, e nada a faria mais feliz do que fazer parte de sua vida.
Alguns minutos mais tarde, quando alcanaram uma regio da cidade cheia de rvores frutferas c casas confortveis, ele explicou:
	Papai decidiu aposentar-sc c viver perto do campo, sem deixar o conforto das grandes cidades.
	E sua me?
	Ela ainda cuida do negcio de cctus. Gosta de manter-se ocupada, c acho que jamais abandonar o trabalho.
Pararam diante de uma casa branca, cercada por jardins e com uma grande estufa  direita. No instante cm que Kurt desligou o motor, uma mulher de cabelos brancos correu a recebe-los.
	Sua me?  Andrea perguntou.
	Sim  ele respondeu, antes de abrir a porta c descer para abra-la.
	Oh, Kurt, que bom que est aqui! Pensei cm telefonar, mas...
 e parou, notando a presena da visitante desconhecida.
	Mame, esta c Andrea' Claybourne, uma colega de trabalho.
Por que est to ansiosa? Algum problema?
A sra. Marlowe respirou fundo:
	Sim. Vov Marlowe est muito doente.
	 grave?
	Parece que sim. Seu pai vai embarcar no prximo vo para o leste, c quer que eu v com ele. No entanto... Quem vai cuidar de Lynn?
	Por que no telefonou para o parque? Eu posso ficar com minha filha o tempo que for necessrio, mame.
	Graas a Deus! Mas... e o seu emprego?
	Eu recebi alguns dias de licena. V arrumar suas coisas, mame. Enquanto isso, irei dizer a papai que estou aqui, c que voc Poder acompanh-lo.
Andrea foi levada para o interior da confortvel residncia, e ficou sozinha enquanto os membros da famlia cuidavam dos preparativos para a viagem. Estava sentada na sala. apreciando a decorao pitoresca, quando unia voz doce perguntou:
	Quem  voc?
A semelhana entre aquela criana c Kurt era to impressionante, que no precisou perguntar quem era aquela criana.
	Sou Andrea, uma amiga de seu pai. Ele me trouxe at aqui.
	Papai est aqui?
	Est. No sabia?
	No. Estava tirando um cochilo com minha boneca, c acabei de acordar.
	Eu tambm durmo com minhas bonecas  Andrea sorriu.
	Quer conhecer a minha?
	Eu adoraria, mas... No quer ir ver seu pai?
	Ele est l cm cima, c vov no me deixa subir sozinha. Ela diz que eu sempre arrumo encrenca.
	Encrenca sria?
	As vezes. Gosto de brincar com a maquiagem que ela guarda na gaveta do banheiro  riu, caminhando pelo corredor.  Meu quarto fica aqui cm baixo. Espere aqui, enquanto vou buscar minha boneca.
Quando Lynn retornou, seu rosto delicado estava escondido atrs de uma boneca, uma caixa de lpis coloridos e um livro de pinturas.
	Gosta de pintar?  perguntou.
	Quando eu era pequena, passava a maior parte do tempo colorindo livros como esse.
	Quer pintar comigo?
	Eu adoraria  Andrea sorriu, sentando-se sobre o tapete, ao lado da menina.  Que pgina vamos colorir?
	Voc escolhe  Lynn sugeriu, oferecendo o livro e espalhando os lpis pelo cho.
	O que acha do circo de pneis?
	 lindo. Escolha um lpis.
	Acho que vou pintar meu pnci de marrom.
	O meu ser vermelho  Lynn decidiu.
	Vermelho?  Andrea sorriu.  Nunca vi um pnci dessa cor.

	 s faz-dc-conta. Papai diz que. quando estou fingindo, posso usar a cor que quiser.
	 verdade, meu amor! Pode usar quantas cores quiser.
	Papai!

	Espero que Lynn no tenha aborrecido voc  ele disse, tomando a menina nos braos c olhando para Andrea.  Ela adora quando algum se oferece para ajud-la a pintar.
	Ela tambm gostava de pintar quando era pequena, papai.
	E verdade. Podemos terminar nossa pintura, ou prefere conversar com seu pai?
	Quero os dois!  Lynn exclamou, sentando-se novamente no cho.
Einquanto ela pintava o pnei de vermelho. Andrea dirigiu-sc a Kurt:
	Acho que vim numa pssima hora. Sc puder chamar um txi, encontrarei o hotel sozinha.
	Sei que estou pedindo demais, mas importa-se de ficar mais um pouco e brincar com Lynn? Preciso levar meus pais ao aeroporto, c ela no se adapta bem em automveis.
	Fico enjoada  Lynn explicou.
	E claro que no me importo!  Andrea respondeu com alegria.
 Fico feliz por poder ajudar.
	Acha que vai ficar bem com Andrea, Lynn? Devo estar de volta dentro de duas horas.
	No vou subir, e no vou mexer na maquiagem da vov.
	V sossegado. Kurt. Ns duas ficaremos bem.
	Obrigado. Ah. trarei o jantar quando voltar.
	Se quiser, posso preparar alguma coisa.
	No se preocupe com isso. Seja uma boa menina, querida. At logo, Andrea.
Duas horas mais tarde, Kurt voltou com o frango frito e a salada de legumes que escolhera no restaurante mais prximo.
	Veja, papai!  Lynn mostrou orgulhosa.  Andrea pintou minhas unhas de cor de rosa!
	Ah, esto lindas!  Kurt aprovou com um sorriso.
	Espero que no se importe. Ela queria que as unhas ficassem como as minhas, e ento... Posso remover o esmalte antes de ir embora.
	Bobagem  ele riu.  Ei, voc das unhas pintadas. Por que no leva esse frango para a cozinha e arruma a mesa para ns?
	Posso trocar o leite por uma soda?  Lynn perguntou.
	No. Andrea c eu tomaremos sodas, mas voc vai tomar o seu leite.
	Papai!
	Se comer tudo. deixarei alguns goles da minha para voc. E agora v. c no esquea os guardanapos.  Assim que Lynn saiu da sala, Kurt prosseguiu:  Mame disse que ficaro fora pelo menos uma semana, talvez mais. Esto tristes, mas sabem que ningum  eterno, c vov completou noventa anos no ltimo vero.
	Talvez ele ainda se recupere  Andrea opinou.  Estou torcendo para isso.
	Todos ns estamos. Felizmente decidi vir para casa, ou mame no poderia ter ido.
	Um hospital no c lugar para crianas. Lynn  adorvel, Kurt, c inteligente demais para a idade.
	 estranho. Normalmente ela fica quieta diante de estranhos.
Falando nisso, acho melhor ir ver o que ela est fazendo. Quando Lynn fica muito quieta,  melhor correr.
O jantar foi uma ocasio agradvel c divertida, e Lynn parecia gostar do papel de anfitri.
	No. querida, obrigada - Andrea recusou mais um pedao de frango.  Estou satisfeita.
	E voc, papai? Ainda temos uma coxa e uma asa.
	No. obrigado. Vamos guardar para amanh, est bem? V escovar os dentes c preparar-se para ir para a cama.
	Mas eu no estou cansada. .Quero colorir mais um desenho.
	No, querida. Hora de dormir. Venha, vou ajud-la a mudar de roupa.
	No! Quero que Andrea venha me ajudar!
	Andrea c uma convidada. Eu vou ajud-la.
	Vov diz que os rapazes no podem ver as garotas em roupas ntimas.
	Vov no est aqui. Lynn. J disse que ela vai passar alguns dias fora. e vamos ter de nos ajeitar sozinhos.
	No!
	Kurt. eu no me importo de ajudar  Andrea interferiu.
	Ela vai me ajudar, c voc lava a loua  Lynn ordenou.
	Ela c muito parecida com voc. no?  Andrea riu.  No se preocupe conosco. Voltarei cm alguns minutos.
Depois de escovar os dentes c mudar de roupa, Lynn deitou-se e esperou que Andrea a cobrisse. Estava despedindo-se da nova amiga, quando Kurt entrou no quarto c perguntou:
	J fez sua prece noturna?
	Sim, papai. Eu nunca esqueo de fazer minhas preces.
	Boa menina. Ento me d um beijo, um abrao, c durma com os anjos.
Ao abra-lo, Lynn sussurrou alguma coisa no ouvido do pai c, rindo. Kurt virou-sc para Andrea:
	Ela quer saber se no vai lhe dar um beijo de boa noite.
	E claro que vou!  c inclinou-se para beij-la na testa, surpreendendo-sc ao sentir que a pequena a abraava com fora.
	Quer abraar c beijar minha boneca tambm?
	E claro que sim. Boa noite para as duas  Andrca-disse, beijando a boneca.
	Lembre-se, querida, vov c vov no estaro aqui amanh cedo, mas eu estarei  Kurt indicou, antes de apagar a luz.
	Andrea tambm vai estar aqui?
	Eu... eu no sei. querida. Ainda no discuti o assunto com seu pai.
	Ela pode ficar, papai?
	Sim, Lynn. Durma tranquila. Andrea vai ficar conosco.

CAPITULO XI

Lynn est gostando muito de sua visita  Kurt comentou alguns dias mais tarde. Haviam posto a garota na cama para o sono da tarde e estavam arrumando a sala de visitas. Andrea estava hospedada na casa dos pais dele desde o primeiro dia. e j haviam estabelecido uma rotina domestica, que inclua os cuidados com os cctus da sra. Marlowe. Mais tarde, na estufa, Andrea observava os dedos cheios de espinhos quando ele sugeriu:
	Por que no vai l dentro c desinfeta esses ferimentos? Posso cuidar disso sozinho.
	Eu sei que pode  ela sorriu, fitando-o com amor.
	Por favor, no faa isso.
	No posso evitar.
E como se o mundo houvesse parado de repente, abraaram-sc c trocaram um beijo apaixonado, cheio de promessas. Quando finalmente afastaram-se, Kurt saiu e deixou-a sozinha.
Durante o resto da semana, falaram sobre coisas sem importncia, como livros, filmes c notcias dos jornais. A atmosfera era tensa, mas Andrea sentia-se fciiz por fingir que formavam um casal. O prazer secreto que tirava da fantasia terminou quando soube que os dias de convivncia estavam chegando ao fim.
Estavam na estufa, quando Kurt anunciou:
	Falei com meus pais na noite passada. Vov est bem melhor, e deve sair do hospital ainda hoje.
	Que bom. E agora, o que vai fazer?
Aceitar a proposta daquele grupo de proteo ambiental e procurar uma casa para mim e Lynn.
	J discutiu o assunto com seus pais?  ela perguntou, tentando esconder a tristeza.
	Ainda no. Papai pretende ficar com meu av at ter certeza de que ele est bem, mas mame deve voltar cm dois dias.
	Em outras palavras, no precisa mais de mim.
	Eu no disse isso.
	No, mas  a verdade. E ento? Vamos manter algum contato?
Ele no respondeu.
	 irnico  ela comentou.  Quando nos conhecemos, voc queria livrar-se de mim. E agora que vamos nos separar, continua desejando a mesma coisa.
	Isso no  verdade! Sou grato por ter me ajudado com Lynn, mas voc tem um emprego, e no pode passar o resto da vida aqui, cuidando dela. Precisa cuidar de sua vida!
	Esperava que passasse a fazer parte dela. Vocs dois!
	Andrea, adoraria dizer que estou pronto para recomear, mas no  verdade! J sofri muito por causa de Sarah, c no quero passar por tudo outra vez.
	Sarah, Sarah! Sempre ela! No pode passar o resto de seus dias fugindo da vida por causa de uma morte! Dee morreu a meu lado, mas sei que ficaria infeliz se soubesse que deixei de viver por causa dela. Seria um insulto a todas as coisas boas que dividimos!
A vida  preciosa, e dcverhos viv-la por inteiro. Juntos!
. No tenho mais nada a oferecer. Andrea. A morte de Sarah me deixou seco por dentro. Decidi deixar o parque para tornar tudo mais fcil, entende? Voc est superando a morte de uma pessoa querida, e no precisa de mais sofrimento num momento to delicado.
	Por que insiste cm fingir que a morte de Sarah  a responsvel por estarmos separados? Por que no diz a verdade? Seria mais simples, se eu soubesse que simplesmente no me quer.
	Se dissesse que no a quero, estaria mentindo. O sentimento existe, mas sem a intensidade necessria.  como-se eu estivesse preso num casulo, entende?
	No. Mesmo assim, ainda quero voc comigo.
	O acidente de Sarah destruiu algo dentro de mim. No sei se algum dia estarei pronto novamente. E esses dias que passamos juntos s serviram para tornar tudo mais difcil, mais... 0 que quero dizer c que. quanto mais cedo partir, melhor para ns dois.
	Kurt. voc j salvou tantas vidas! Por que no tenta salvar-se?
	J tentei. Deus sabe o quanto tentei.
	Por favor, Kurt, no desista.
No dia seguinte. Andrea ficou com Lynn enquanto Kurt foi buscar a. me no aeroporto. Sentia-se ansiosa para partir, pois ficar perto dele tornara-se desgastane c doloroso. Por isso, quando ele anunciou que a levaria de volta. Andrea foi incapaz de conter-sc:
	De jeito nenhum! No vai enfrentar uma viagem de trs horas por minha causa!
	Preciso assinar alguns papis no departamento pessoal, e quero apanhar o equipamento que deixei no meu quarto, no alojamento.
Sei que no quer conversar, mas podemos ligar o rdio do jcep para quebrar o silncio.
Andrea estava prestes a recusar definitivamente a carona, quando Lynn entrou na sala para despedir-se.
	Leve meu livro de colorir  ela disse.  Voc c papai podem pint-lo quando estiverem de folga.
Emocionada, sentiu que seria incapaz de dizer qualquer coisa c, depois de abraar a garota. Andrea entrou no jecp c preparou-se para enfrentar as ltimas horas de sofrimento. Em trs horas, estaria novamente sozinha, como sempre fora.
Depois da primeira metade do trajeto, quando entraram na faixa de estrada que cruzava o deserto. Kurt no conseguiu mais sintonizar o rdio. Perturbado com o silencio, perguntou:
	Quando vai comear a treinar com os helicpteros?
	Assim que chegar, acho.
	Vai gostar do trabalho.
	Acho que sim.
	No parece muito entusiasmada.
	S estou pensando que. agora, nunca mais poderei ir ver as runas indgenas. .
	 verdade. No tivemos uma chance de ir conhec-las, no ?  e apontou para a interseco da estrada.  Vou seguir pela direita, por Sedona. Quer parar para comer alguma coisa?
	No, obrigada. Mas pare, se quiser comer.
	Talvez mude de ideia quando chegarmos l.
Seguiram cm silncio, cia fingindo apreciar a paisagem, e ela atento ao volante. Quando ultrapassaram um caminho, algum tempo mais tarde, Andrea viu trs crianas morenas na carroecria c exclamou:
	Veja s aquilo! No sao lindas?
	Detesto ver crianas viajando desse jeito. Deviam estar no banco traseiro de um carro, protegidas por cintos de segurana.
Uma das crianas acenou, e ela retribuiu com um sorriso.
	A julgar pelo estado do caminho, duvido que sequer conheam um automvel como o que est descrevendo  disse, assim que ultrapassaram o veculo de carga.
Kurt limitou-se a afirmar com a cabea, um ruga de preocupao entre os olhos.
Quando pararam cm Sedona para abastecer o carro, Andrea decidiu comer alguma coisa e tomar uma xcara de caf forte c quente., e s voltaram  estrada uma hora mais tarde.
	Acha que algum dia voltar a Phoenix?  ele perguntou.
Surpresa. Andrea lutou contra a sbita onda de esperana.
	No sei, mas acho que no terei muito tempo de folga de agora em diante.
	Quando tiver uma folga, talvez possa ir visitar nossa nova casa. Lynn ficaria encantada!
	E voc?
	Tambm. Mas no estou fazendo promessas. Andrea.
	Eu sei.
Seguiram cm silencio por quase meia hora, ate que ela viu novamente o caminho com as crianas na carroceria.
	Veja! L esto eles novamente.
	Devem ter nos ultrapassado quando paramos para comer.
	Os pobrezinhos no tm sequer um agasalho. Espero que no estejam com frio.
	Espero que estejam usando sapatos fortes, porque vo acabar tendo de empurrar aquele caminho na regio das grandes subidas.
	Kurt. no diga isso!
	Acho melhor seguirmos esse maluco de perto. No existem postos nesta rea. e eles podem precisar de ajuda.
	Espero que...  e parou, assustada com o estrondo que cortou o ar quieto da montanha.
Um dos pneus do caminho estourou, e o motorista perdeu o controle do veculo que, desgovernado, atravessou a pista e tombou no lado oposto, bem perto do precipcio.
As crianas foram jogadas para fora da carroceria como bonecos, e ficaram imveis sobre a terra vermelha do acostamento.
	Rpido, use o rdio transmissor do carro e pea ajuda!  Kurt exclamou, saltando como se houvesse sido picado por centenas de abelhas.  Depois v ver as crianas. Vou tentar tirar o motorista do meio das ferragens.
Um minuto mais tarde, Andrea alcanou o pequeno trio. Duas delas estavam conscientes, chamando pelo pai em espanhol, c o mais velho tinha o corpo coberto por ferimentos profundos c assustadores, incluindo um corte na cabea.
	No posso abrir a porta!  Kurt gritou.  Est muito amassada.
	E os passageiros?
	Duas crianas maiores, inconscientes como o motorista.
	No podemos remov-los sem o equipamento necessrio. Temos apenas uma caixa de primeiros socorros, mas eles podem ter sofrido fraturas serias. Vamos esperar a ambulncia.
	Andrea, sei que tem muita experincia em atendimento de emergncia, mas no podemos esperar. Respire fundo.
	Oh, no! Gasolina!
	Uma fasca ser o bastante para iniciar um incndio, c no temos como apag-lo.
	Oh, no! No podemos deix-los aqui, Kurt!  ela desesperou-sc. como se o cheiro houvesse despertado lembranas dramticas de outro incndio.
	As outras crianas esto longe do caminho, e no sero atingidas, caso haja fogo. Como eles esto?
	As meninas tm ferimentos c algumas fraturas,   e o garoto est inconsciente, com um enorme corte na cabea e ferimentos graves pelo corpo.
	A ambulncia cuidar deles. Venha, me ajude a soltar o cinto de segurana do motorista.
Andrea soltou o cinto e ajudou Kurt a puxar o corpo inerte pela janela. Tomando todo o cuidado possvel, levaram-no para junto das outras crianas, longe do caminho.
Estavam tentando remover uma das crianas, quando a tampa do radiador soltou-se com um estalo.
	O motor ainda est quente, o que significa que pode provocar fascas. Mais depressa!  Andrea impacientou-se, soltando os cintos que prendiam os corpos inertes.  Tire os daqui! No vo morrer num avio em chamas, se eu puder evitar!
	Andrea...
	Desculpe. Caminho. Foi isso que eu quis dizer.
	Por favor, no perca o juzo agora. Venha, vamos lev-los para junto dos outros. A menina c pequena, c voc pode carreg-la sozinha.
Sem esper-la, ele tomou o garoto nos braos e afastou-se, enquanto Andrea buscava uma posio para remover a garota sem correr o risco de feri-la. De repente sentiu que algo a mantinha presa ao assento e, desesperada, tocou o pedao de meta! sobre a pequena perna retorcida.
	No! Droga, isso no!
	O que foi?  Kurt perguntou, voltando para ajud-la.
	A perna ficou presa entre as ferragens. No consigo tir-la daqui!
	Vamos pux-la juntos. Cuidado com os vidros quebrados, est bem. Agora!
Mas a combinao de esforos no surtiu resultado.
	Precisamos tir-la do caminho!  Andrea gritou com desespero.
	Precisamos de ferramentas.
	E onde acha que as conseguiremos. No estamos numa misso oficial!
	Vamos usar o macaco.
	O qu?
	O macaco. Temos de levantar essas ferragens.
	Boa ideia! V busc-lo de uma vez!
	V voc. Eu fico com a garota. O jeep est aberto.
	De jeito nenhum! O caminho pode pegar fogo c...
	Eu sei! V de uma vez!
	Kurt...
	Est perdendo um tempo precioso, Andrea!
Sabia que ele estava certo, mas tinha medo. Medo de ver o caminho explodir como aquele avio, e de ser forada a reconhecer mais um corpo querido coberto por um lenol. Tinha medo de perder o homem que amava!
E mesmo assim, fez conto ele dizia.
Estava voltando com o macaco, quando uma pea desprendeu-se e rolou at a beira da estrada. Desesperada, correu atrs dela c abaixou-se para apanh-la, c ainda estava de costas quando ouviu o estrondo.
Queria gritar, chorar, correr, mas no conseguia sequer respirar.
Havia acabado.
Gelada, fechou os olhos e permaneceu onde estava, esperando que a morte tambm a livrasse da dor que a dominava.
	Andrca! Abra os ollios, amor!
Incapaz de acreditar no que ouvia, esperou ate ouvir seu nome novamente, e s ento voltou a respirar.
	Kurt?  voc?
Ele estava parado diante dela com uma garotinha nos braos. A camisa rasgada mostrava ferimentos profundos no peito c nas costas, mas estava vivo. Vivo!
	 claro que sou eu.
	Mas como...? Como conseguiu sair?
	Tive tanto medo de nunca mais poder v-la, que encontrei foras para erguer as ferragens sozinho.
	Com... as mos?
	Isso mesmo. E acho que elas ainda esto inteiras.
.     Oh, meu Deus!
Apesar da emoo, voltaram ao trabalho e tentaram acalmar as vtimas at a chegada da ambulncia. A famlia foi levada para o hospital mais prximo, c os bombeiros cuidaram do incndio. Enquanto os tcnicos de emergncia cuidavam dos ferimentos de Kurt. Andrca levou as ferramentas e o equipamento de primeiro socorros para o jcep e esperou at que todas as viaturas partissem. Ento, quando ficaram sozinhos novamente, ela perguntou:
	Voc est bem?
Ele sorriu c. em silncio, tomou-a nos braos.
	Kurt, cuidado com os ferimentos!
	Isso no  nada. comparado a tudo o que senti naquele caminho. Voc estava certa!
	Certa? Sobre o qu?
	Sobre a importncia da vida c do amor. Quando recusou-se a sair do caminho, tive medo de perd-la, de v-la transformar-sc em outra Sarah. c ento a obriguei a afastar-se. E depois... Bem.
percebi que estava fugindo da morte c que, para isso. me escondia da vida. E a vida  preciosa demais para ser desperdiada, Andrea Podia ter feito voc feliz desde o primeiro instante, c tudo o que fiz foi provocar sua infelicidade. Como fui idiota.
	No. Kurt  ela protestou, as lgrimas misturando-se ao sorriso que bailava em seus lbios.  A morte de Sarah o abalou profundamente, c por isso ficou confuso. Eu entendo...
	Voc tambm enfrentou a morte de algum querido, mas no se escondeu. Preferiu acreditar na vida, no amor... c em mira.
	Eu nunca desisto  ela riu.  Deve ser o treinamento de comissria de bordo.
	 mais que isso. Gostaria de passar o resto da vida descobrindo os maravilhosos segredos desse corao. Isto , se voc tambm quiser...
	Se eu quiser?.  tudo o que eu quero!  ela exclamou, beijando-o com paixo.

CAPITULO XII

Kurt Marlowe, voc no pode desistir de ser ^patrulhciro!  exclamou a sra. Marlowc.  Pelo amor de Deus! Acha que ser feliz trancado num escritrio?
	No. mame.
Andrca ouvia o sermo em silencio, lutando contra a vontade de rir.
Duas semanas haviam se passado desde o acidente, quando Kurt finalmente livrara-se do fantasma de Sarah, reintegrara-sc ao trabalho e a pedira em casamento num quarto de hotel, cm Scdona. Decidiram levar Lynn para Flagstaff. onde morariam os trs juntos.
Agora, feliz em seu vestido de noiva, esperava que a sra. Marlowc terminasse de ajeitar a gravata do filho, enquanto fazia seu discurso inflamado.
	Como se j no bastasse passar a lua-de-mcl no meio das runas indgenas... Por que no vo para o Hava, como a maioria dos casais que conheo?
	Porque o Hava possui apenas sete ilhas, mame, e minha esposa ficaria aborrecida.
	Entendo. Mas por que no se casam numa igreja, em vez de realizar a cerimnia no meio do mato?. Como conseguiram convencer os pais de Andrca a aceitar algo to absurdo?
	Vamos nos casar diante de um padre, mame  Kurt insistiu, sorrindo para os futuros sogros.  c nenhum lugar poderia ser melhor que o Grand Canyon.
O cu azul e limpo estendia-se ate o infinito, e Andrea tinha certeza de que o sol brilhava especialmente para cies.
	No vai conseguir me convencer de que este lugar  melhor que uma igreja  a sra. Marlowe insistiu.  Venha, Lynn. .hora de ocuparmos nossos lugares.
Lynn colocou-se ao lado de Emily, que tambm havia sido convidada para ser dama de honra. De mos dadas, as duas preparam-se para abrir caminho para a noiva radiante que, sorrindo, fitou o futuro marido com verdadeira adorao.
O padre fez sinal para que se aproximassem, mas Andrea exclamou:
	Esperem um minuto! Onde est Jim?
	Aqui!  ele gritou.
	Mas o que  isso?  a sra. Marlowe espantou-se, levando as mos ao rosto.
Jim puxava um pequeno burro, cujo pescoo fora adornado por uma grinalda de flores coloridas.
	Este  o seu presente de casamento. Aqui est, Kurt. O filhote foi tratado e est curado, como voc queria.  todo seu.
	Ei, no olhe para mim desse jeito!  Kurt protestou, segurando as rdeas e notando o olhar divertido da futura esposa.  S pensei em ensinar Lynn a cavalgar, antes de lev-la no primeiro passeio pelo Canyon.
	 claro!  Andrea riu.  Pelo bem de Lynn, s isso. Muito obrigada  e beijou-o rapidamente.
	Ei, devia estar agradecendo a mim!  Jim protestou.
	Esquea  Kurt avisou, fitando-o com ar srio.
	O filhote  meu, papai?  Lynn entusiasmou-se.  Podemos ficar com ele?
	Tambm quero um burro!  Emily pediu aos pais.  Por favor, mame!
	Veja o que voc fez, seu miolo mole!  a sra. Marlowe censurou o filho.
	Temos de encontrar um nome para ele  Lynn lembrou.
	Sim, querida, mas no  ele.  ela  Andrea corrigiu, diver tindo-se com a situao.
	Tambm vou querer um burro no meu casamento  Emily afirmou. 
	Burros no coinbinam com casamentos  protestou a sra. Marlowe.
	Eu discordo  Andrea opinou, afagando o pescoo do animal.
 Estou feliz por v-la novamente, gracinha. No sabe como as coisas mudaram desde o dia em que nos conhecemos. No sei quanto aos outros, mas'voc combina com o meu casamento.
A me de Kurt olhou para os noivos c balanou a cabea num gesto de resignao.
	Vamos comear  Kurt avisou.  Siga em frente, Jim. Garotas, caminhem logo atrs do burro, c fiquem junto de ns at o final da cerimnia.  Virando-se para Andrca, segurou sua mo e perguntou.  Est pronta, meu amor?
	Oh, sim! Estou pronta h mais tempo do que pode imaginar.
Mas estou to feliz, que no me importo por ter esperado tanto.
	Pois eu me importo!  Kurt indicou, guiando-a em direo ao padre.
As cores do Canyon tingiam seu vestido branco e longo, e o reflexo prateado do Colorado emprestava um tom quase irreal ao cortejo.
	Eu amo voc, Andrea Claybourne.
O padre abriu o livro sobre o altar improvisado, parentes e amigos chegaram mais perto, e Lynn segurou a mo de Andrea. Sorrindo, ela olhou para os dois c sussurrou:
	Tambm amo vocs. Muito...


FIM
